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Tuio, que teria feito 70

Luiz Carlos Merten

10 de agosto de 2013 | 17h17

GRAMADO – Na quinta, em Porto Alegre, não tive tempo de postar, mas pensei o dia inteiro em, meu amigo Tuio Becker. Tuio era um pouco mais velho que eu. Se vou fazer 68 anos em setembro (68!), ele deveria ter feito 70 no dia 8. Impossível não me lembrar de nossa juventude na Faculdade de Arquitetura, da amizade selada com muito vinho Sangue de Boi e nas intermináveis conversas sobre filmes. Morria de inveja do Tuio, que vera de Santa Cruz, a cidade de meu pai, e lá, não sei por qual sortilégio, ele tinha livre acesso e conseguira ver os filmes proibidos até 18 anos que eu só conhecia de ouvir falar. Um de nossos assuntos preferidos, no quesito putaria,  era Barbara Valentim, uma estrela alemã da era pré-pornô que tinha peitos de fazer inveja à própria Jayne Mansfield e a Barbara liberava os seios que a gringa regulava, só sugerindo o que a outra regulava em Hollywood. Há uma cena clássica de Jayne numa comédia de Frank Tashlin. Ela chega com os seios perfeitamente tapados, mas carregando, de cada lado, um litro de leite. Barbara, literalmente, dava de mamar a seus machos e  havia num filme num barco, com uns marinheiros broncos… Jesus! Tuio não gostava tanto de faroeste quanto eu, mas conhecia todo Budd Boetticher, todo Anthony Mann, além dos grandes John Ford, Howard Hawks, Raoul Walsh e Henry Hathaway. Em relação ao cinema adulto europeu – sueco, francês – eu era principiante perto dele. E o Tuio também havia visto mais cinema neo-realista que eu. A vida nos afastou e quando, já em São Paulo, voltava a Porto Alegre e o encontrava, não era a mesma coisa. Existem amigos que partiram e que me fazem falta. Tuio, Sérgio Moita, Romeu Grimaldi, Jefferson Barros, José Onofre. Meu vínculo com a maioria deles era através do cinema, não o Sérgio, que foi meu colega no Esporte de Zero Hora. Emociono-me ao lembrar daquela turma do Esporte. E do ‘meu’ povo do cinema. Tuio e Romeu receberam homenagens do Festival de Gramado. São lembrados por meio de placas nas paredes do Cine Embaixador, o palácio do festival. Difícil estar aqui e não viajar nas lembranças. Não choro o tempo perdido, mas os amigos. Permanecem comigo pelo efeito do tempo reencontrado. Às vezes, assisto a um filme e penso – esse, o Tuio ia adorar; esse, ia odiar. Só que queria que os seus 70 anos não passassem em branco.

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