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Tudo o que o céu permite, Rock Hudson

Luiz Carlos Merten

05 de maio de 2019 | 22h27

SAbia que meu editor, Ubiratan Brasil, em férias, ia a Nova York. Pedi-lhe que me comprasse um livro, cuja resenha li nessas revistas de cinema de língua inglesa. A biografia de Rock Hudson, por Mark Griffin. All That Heaven Allows, Tudo o Que o Céu Permite, como o filme famoso de Douglas Sirk que ele estrelou. Descobri que Griffin também é autor de uma biografia de Vincente Minnelli. A Hundred and More Hidden Things – The Life and Films of VM. Fiquei curioso sobre as coisas escondidas que Griffin revela sobre o pai de Liza Minnelli. Que era gay, ou bissexual? Não chegam a ser revelações. ‘Eram assim as coisas em Hollywood. O sistema – a indústria? – esperava que você calassse a pouca como esperava que você decorasse suas linhas de diálogos. Ninguém dizia nada, mas tudo estava implícito, e era assim que se jogava o jogo.’ Hoje, parecem tão escancaradas as bandeiras que ele dava, principalmente nas com´édias com Doris Day, que parece absurdo que as pessoas não se dessem conta de que o grande ícone de virilidade da América nos anos 1950 e parte dos 60 não era nada daquilo. Talvez fosse – como Dani, ao se sacrificar em A Golondrina. Ao assumir, em 1985, que estava morrendo de complicações decorrentes da aids, Rock Hudson interpretou ali seu maior papel, não nos clássicos de Sirk, de George Stevens, de Raoul Walsh ou John Frankenheimer. A aids já era uma pandemia mundial, mas escrevi outro dia, em outro post, que era trada como câncer gay. Para muitos (puritanos?) chegava a ser uma punição divina para a vida promíscua desses sodomitas. Mas quando Rock Hudson assumiu a doença – naquele tempo não se dizia que era ‘soropositivo’ -, o mundo todo, incluindo o então presidente Ronald Reagan e a mulher, Nancy, não puderam mais ignorar que algo de grave estava se passando na América e no mundo. Acho incrível que tenha começado a ler esse livro justamente hoje, após uma semana em que a aids e o preconceito contra gays foram temas de tantos posts nesse blog, em função de montagens teatrais (A Golondrina, Angels in America, Depois Daquela Viagem). Por um momento, e sua morte contribuiu para isso, o mundo pareceu menos discriminador em 1985. E hoje? Não foi o coiso quem abriu o Brasil para quem quiser vir comer mulher? ‘O Brasil não pode ser país do mundo gay, do turismo gay, temos família.’ Estamos regredindo décadas.u