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Tudo, nada

Luiz Carlos Merten

23 de janeiro de 2013 | 13h05

TIRADENTES – Acabo de vir do debate sobre ‘Matéria de Composição’. Se gostei muito do filme, gostei ainda mais da fala de Pedro Aspahan. O diretor possui cultura e erudição e fala sobre o filme que está na tela, não sobre um filme hipotético – que eu até gostaria de ter visto – como o Pablo Lobato de ‘Ventos de Valls’. Mas há uma coisa que quero falar aqui, deixar registrada. O filme trata do processo de criação por meio de três compositores de música erudita e experimental. Cada um cria sobre um vídeo proposto pelo diretor, e que mostra o desmanche de uma casa. O filme trabalha muito os conceitos de desconstrução e criação, mas Pedro, falando sobre o desmanche, lhe atribuiu um significado político, seguindo a sugestão de Rubens Machado, que foi o debatedor na mesa. Rubens falou no desmanche à luz da globalização, dessa ordem neoliberal que, em nome da competitividade, destroi conquistas da República com a maior impunidade. Pedro foi além. Disse que Belo Horizonte é uma cidade que está sendo desmantelada pela especulação imobiliária, que avança sopbre casas e as destroi para construir prédios e hoteis, neste período pré-Copa. Lembrei-me de ‘Le Mani sulla Città’, de Francesco Rosi, um filme farol do começo dos anos 1960 e um dos mais representativos do cinema documentado do cineasta, com ‘O Bandido Giuliano’ , que é mais conhecido (e famosdo). Mas Pedro citou ‘Os Residentes’, do ex-crítico da ‘Folha’ Tiago Mata Machado, a que assisti aqui mesmo, em Tiradentes. Era um filme profético, visionário, que se construía sobre outro desmanche e, por sua riqueza sonora, também antecipava ‘O Som ao Redor’. ‘Os Residentes’ nunca teve o reconhecimento que merecia, ou pelo menos assim me pareceu. Também me preocupa se ‘Matéria de Composição’ terá uma vida além de Tiradentes. Detesto a definição de filme ‘difícil’, mas me pergunto se outro público que não o de Tiradentes, que já está sendo formado nas indagações estéticas do jovem cinema independente, terá condições de absorver o belo filme que vi? Não fiz pergunta nenhuma no debate, e me arrependi. Quando estava levantando a mão, Francisco Césdar Filho, o Chiquinho, já estava encerrando o encontro, invocando os motivos pelos quais teria de ser rígido quanto ao horário (e que envolviam a programação a seguir). Mas gostaria de ter falado, não sei se perguntado, sopbre as cenas que mais me impressionaram. O compositor olhando de lado, a imagem silenciosa, de lado, e o bloco de concreto pendurado pelo ferro, imagem sobre a qual entram os sons das diferentes composições. Cada uma daquelas imagens, isolada do contexto do filme, significa o quê – nada? E o que é ‘nada’, senão o reverso de ‘tudo’? Queria ter feito essa observação. O filme invenção nossa, do público. Eu tu eles. Eu, você, nós. Vale para qualquer filme, em todo lugar, mas Tiradentes é o território ideal para essa indagação que me consome.

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