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Tudo é sério, se a alma não é pequena

Luiz Carlos Merten

22 Julho 2016 | 09h42

Tenho tido algumas experiências memoráveis no cinema. Estou falando de coisas recentes, não de Rocco e Seus Irmãos. Há, em A Lenda de Tarzan, a cena em que o herói enfrenta o irmão macaco, que o considera um desertor. Tarzan abandonou a selva, foi ser lorde em Londres. Mas está de volta. Aconteça o que acontecer, ele diz a Samuel L.Jackson, não interfira. E luta. A luta com o irmão macaco marca sua reintegração. Mais tarde, Tarzan vai ao chefe nativo que está entregando as joias de Opar ao cruel Capitão Rom. Djimon Hounsou odeia Tarzan, a quem responsabiliza pela morte do filho. Ele era um menino, grita. Você não tem honra. E Tarzan sussurra em seu ouvido, como um pedido de desculpas – não tinha (honra), mas agora ele tem, e está querendo impedir que mais e mais nativos sejam escravizados por Rom, que quer os diamantes de Opar para formar um Exército de mercenários. Ao chegar nos domínios de Djimon, Alexander Skarsgard, o Tarzan, é cercado pelos nativos hostis. Das pedras saltam os gorilas que o cercam e formam um cinturão protetor. O irmão o perdoou, e reintegrou. Hu-hu! Como leitor de Edgar Rice Burroughs surtei com o Tarzan de David Yates. Reencontrei o ‘meu’ herói, mas sempre me perguntei, desde que vi o filme, como os demais espectadores o receberiam? Meu querido amigo André Miranda, no Globo, deu bonequinho dormindo para A Lenda de Tarzan. Não li a crítica, mas o título (A falta que Chita faz, algo assim) e uma observação no começo me apontaram o teor de suas restrições. Yates trata seu herói a sério e Tarzan é politicamente correto. E por que não trataria a sério? Chita é uma criação dos roteiristas de Hollywood para servir de alívio cômico em aventuras que muito vagamente remetem ao herói dos livros. E quanto à correção, está nos olhos de quem vê. Tarzan é um herói civilizado, não correto. Carrega o apelo da selva, meio homem, meio fera. Na hora em que tudo parece perdido, e que Rom venceu, ele diz a Jackson – ‘Vou chamar uns amigos.’ E solta o berro. O verdadeiro chamado da selva. Não creio que A Lenda de Tarzan seja um filme perfeito, embora tenha cenas perfeitas (e viscerais). Estou seriamente inclinado a colocá-lo entre meus melhores filmes do ano, com o Superman vs. Batman de Zack Snyder e Como Eu Era Antes de Você, mas também com O Cavalo de Turim, O Botão de Pérola e Os Campos Voltarão, que revi na noite de quarta-feira. Puta filme lindo, meu Deus! E vocês sabem de quem me lembrei? De François Truffaut. Em 1959, Ermanno Olmi tinha 28 anos quando fez Il Tempo Si è Fermato. Em 1961, 30 anos, quando fez Il Posto, que Truffaut amou. Naquele ano, Truffaut estava fazendo Jules e Jim, que integra a programação desta semana da Sala Drive-in, no Belas Artes. Truffaut morreu em 1984, aos 52 anos. Hoje estaria com 84, e fazendo que filmes? Olmi acaba de completar 85 anos. Fez Torneranno i Prati inspirado em relatos de seu pai, que foi soldado na 1.ª Grande Guerra e passou ao filho a experiência das trincheiras. Na noite enluarada, o soldado canta, e a guerra pára. Steven Spielberg já mostrou isso em Cavalo de Guerra. Mais tarde, a lua traiçoeira ilumina a paisagem gelada para que outro soldado, recomeçando a guerra, seja morto com um tiro. Fiz campanha para que Os Campos Voltarão ganhasse o prêmio da crítica na Mostra passada. Alguns colegas preferiam O Filho de Saul, de Laslo Nemes. Sou mais a construção do tempo de Olmi. E ontem, no mesmo Cinesesc, fui ver La Ultima Tierra, de Pablo Lamar, no Festival Latino-americano. Outro filme sobre o tempo, e o som. Nada além de um velho que vive isolado na floresta, e enterra sua mulher. Outro casal de velhos como o de Hamaca Paraguaya, de Paz Encima, que gostaria de ter premiado com a Caméra d’Or, mas os irmãos Dardenne, que presidiam o júri, há dez anos, não tiveram sensibilidade (nem paciência) com o cinema latino. Jantei depois com Dib Carneiro e Orlando Margarido. Há um diálogo possível entre A Última Terra, Hamaca Paraguaya e Terra Deu, Terra Come, de Rodrigo Siqueira. O incrível, o extraordinário – o paraguaio Lamar é técnico de som, seu filme não deixa margem a dúvida. E sabem de que filme brasileiro ele captou o som? Pois foi O Som ao Redor, de Kleber Mendonça Filho. Anna Muylaert, homenageada do Festival Latino deste ano, trabalhou com uma fotógrafa uruguaia em Mãe Só Há Uma. A integração continental. O velho, gestos lentos, encara a morta (e a morte). Tarzan, na solidão da selva, aninha nos braços a mãe macaca, Kala, que o garoto matou. E chora, O Tarzan. Tudo é sério, transcendente, se a alma não é pequena.