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Trumbo é ‘médio’

Luiz Carlos Merten

03 de fevereiro de 2016 | 09h41

Preparem-se, porque o post vai ser longo. Estou atrasado com uma série de filmes em cartaz – Annomalisa, O 5º Poder… Ontem fui ver Trumbo. Havia comprado o livro de Bruce Cook na versão original, que explora (explica?) muito mais a aparente contradição do grande roteirista e diretor. Filho de um xerife que fracassou, Dalton absorveu dele certo puritanismo e ferrenhas convicções éticas, mas nunca quis reproduzir, salvo em sua dramaturgia, o homem derrotado que o pai encarnava. Era obcecado por dinheiro, reconhecimento. Ganhou duas vezes o Oscar, que foram creditados a outros – estava na lista negra – e um recuperou em vida (o de Arenas Sangrentas); o outro foi entregue, postumamente, a sua mulher (o de A Princesa e o Plebeu). O diretor Jay Roach concentra-se justamente no episódio do macarthismo, na luta dos Dez de Hollywood, grupo que Trumbo integrou e invocou a Primeira Emenda para tentar fazer valer a pluralidade de ideias e crenças que está na pedra da lei da Constituição fundadora dos EUA. Essa pluralidade sucumbiu no contexto da ‘Guerra Fria’, quando EUA e URSS emergiram como potências vencedoras da 2ª Guerra e iniciaram uma corrida expansionista e armamentista. Haviam-me falado maravilhas do filme, e do ator. Bryan Cranston, de Breaking Bad, seria melhor que Leonardo DiCaprio, que parece imbatível no Oscar deste ano, por seu papel em O Regresso – que, por sinal, estreia amanhã. Aliás, a sessão de ontem à noite de Trumbo, no Belas Artes, foi precedida não de um trailer de The Revenant, mas de um making of, com direito a falas de DiCaprio e seu diretor, Alejandro González-Iñárritu. É raro que diretores tenham tanta importância no material promocional de um filme do cinemão. Falando inglês com forte sotaque, Iñárritu revela suas motivações para contar a história ‘real’, mas de real mesmo, segundo outra entrevista que ele deu, na revista Gatopardo, existem só a época e o fato de o protagonista sofrer um ataque de urso e ser abandonado para morrer pelo grupo, que ainda trucida seu filho, e isso motiva o desejo de vingança. Se foi por isso, então, O Regresso não tem só similaridades com Fúria Selvagem, mas é um remake do pré-western de Richard C. Sarafian com Richard Harris, um dos filmes mais belos e menos reconhecidos de Hollywood. Tenho filmes e diretores que estão no meu Olimpo e que só parecem interessar a mim. Não estou falando de Rastros de Ódio (John Ford), que virou unanimidade, nem de Rocco (Luchino Visconti) e A Primeira Vitória (Otto Preminger), nem mesmo de Rio Conchos (Gordon Douglas) e O Rastro da Bruxa Vermelha (Edward Ludwig). Estou pensando justamente em Sarafian, de Corrida Contra o Destino, Vanishing Point, que Guillermo Cabrera Infante escreveu sob o pseudônimo de Guillermo Cain, e Fúria Selvagem, em que John Huston, que já adaptara Moby Dick, faz um obcecado Capitão Ahab que carrega pelo seco, pelas pradarias do Oeste, o próprio barco. Sarafian, visionário, em 1971, conseguiu antecipar não apenas Iñárritu como Werner Herzog, Fitzcarraldo. Enfim, volto a Trumbo. Confesso que esperava mais, dada a avalanche de elogios. Jay Roach está longe de ser um grande diretor, mas ri bastante com Entrando numa Fria e Entrando numa Fria Maior ainda. Continuei rindo, ocasionalmente, em Trumbo, porque o personagem, como intelectual mordaz, é dado a tiradas espirituosas. Nesse sentido, o Trumbo de Bryan Cranston me lembrou, por momentos, o Truman Capote de Philip Seymour Hoffman. Seria – impossível! – um Capote não gay. Mas esse humor, como já disse, é ocasional. Transparece nas cenas com Otto Preminger e Kirk Douglas, que resgataram Trumbo e lhe devolveram o nome, ao creditar a ele os roteiros de Exodus e Spartacus. De resto, o filme me pareceu bem mediano e o elenco, irregular. Essa coisa de buscar semelhança física nem sempre funciona. O próprio ator que faz Kirk Douglas pode ser meio parecido, mas não tem carisma nem força. E eu fiquei esperando o tempo todo o que não veio. Dada a mordacidade de Trumbo – e todo o episódio do bate-boca com John Wayne sobre heroísmo e lutar na guerra é exemplar -, senti falta de um comentário dele colocando em seu lugar a Heda Hopper de Helen Mirren, mesmo que fosse a frase com que Kirk Douglas encerra a conversa com ela no restaurante. Hopper, no filme, é a cara mais visível do establishment que fatura com a paranoia do anticomunismo. Vira símbolo e, para mim, não bastou o comentário, que ela acompanha perla TV, do presidente John Kennedy elogiando Spartacus. Cranston é bom e eu gostei de rever Diane Lane (onde andava?) como esposa sofredora, mesmo que o papel não seja brilhante. Mas o Oscar é de ‘Leo’ e ninguém tasca. O único que, para mim, teria força seria o Michael Fassbender de Steve Jobs, mas não creio que a Academia vá premiar o ator de Danny Boyle.