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Truffaut, os filmes de uma vida

Luiz Carlos Merten

31 de março de 2014 | 22h47

PORTO ALEGRE – Aqui estou, desde ontem. Vim para visitar a família – minha irmã operou-se e não havia conseguido vir antes. Aproveitei este fim de semana porque logo inicio temporada de viagens – duas idas ao Rio, em fins de semana consecutivos, uma para assistir à estreia do novo infantil de Gabriel Villela com Luana Piovani, e depois o Cine PE, Cannes. Temo, que, se não tivesse vindo, só poderia voltar lá por junho/julho. Estou arrasado. A Leo, que fazia a programação de TV do Caderno 2, foi demitida hoje – por que? Descobri agora ao chegar ao hotel. Estava me sentindo tão bem. Tive umas matérias para fazer, e que enviei por e-mail, mas o que encheu meu dia foram as duas sessões de um ciclo dedicado a François Truffaut na Sala Redenção, da UFRGS. Os Filmes de Uma Vida. Revi às 4 da tarde Depois do Vendaval, The Quiet Man, de John Ford, e às 7, O Grande Ditador, de Charles Chaplin. A briga de John Wayne e Victor McLaglen é antológica, mas o encanto imorredouro do filme vem dessa Irlanda idealizada de Ford. Innesfree! Mary Kate, Maureen O’Hara, bate pé porque quer seu dote e isso obriga Sean Thornton/Wayne, no limite, a rever sua decisão de nunca mais lutar e enfrentar o cunhado a socos. O filme ‘parece’ machista, mas sempre me impressionou que algumas de suas maiores admiradoras sejam feministas de carteirinha. O que Maureen sussurra no ouvido de Wayne no desfecho e que o faz segui-la correndo para dentro da casa? Vão fazer o primeiro da série de filhos que vai encher a casa? Ainda sob o sortilégio de Depois do Vendaval, que deu a Ford seu quarto Oscar de direção – um recorde nunca igualado, que dirá superado – e que ainda foi premiado em Veneza, assisti à comédia de Chaplin como o barbeiro judeu que tem a cara de Hitler e troca de lugar com ele. Já perdi a conta das vezes que vi O Grande Ditador e choro sempre, copiosamente, no discurso final. É sabido que Chaplin resistiu quanto pôde a utilizar a palavra, mesmo depois que o cinema começou a falar. Ele colocou música em Luzes da Cidade e efeitos sonoros em Tempos Modernos, mas a palavra só entrou em seu cinema para afirmar o credo humanista do autor, no belíssimo discurso que encerra The Great Dictator. O cinema é uma coisa maravilhosa, uma ferramenta para entender o mundo e servir de consolo face à dureza da realidade.

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