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Truffaut, Demy e a eterna nova onda

Luiz Carlos Merten

08 Julho 2015 | 11h41

Fiz anteontem a capa do Caderno 2 com a entrevista de Serge Toubiana, ex-redator-chefe de Cahiers du Cinéma e atual diretor da Cinemateca Francesa. Toubiana, co-autor, com Antoine de Baecque, de um livro sobre François Truffaut, faz a curadoria da exposição que começa terça-feira, dia 13, no MIS. Todo Truffaut – filmes, objetos, roteiros anotados, correspondência, fotos. Toubiana não quis falar por telefone. Pediu que enviasse perguntas por e-mail. Mandei umas 15. Ele respondeu todas, algumas até de forma bem extensa. O espaço era reduzido. Tive de cortar barbaramente, mas vou ‘subir’ a íntegra no portal, porque achei a análise bem aprofundada. E Truffaut é um ‘case’. Teve gente na redação do Estado que veio me dizer que está esperando por Truffaut desde que soube da exposição. A Versátil lançou duas caixas – uma, sobre a nouvelle vague, traz o filme mal-amado do diretor, Um Só Pecado A outra, a ele dedicada, tem três títulos – A Noite Americana, De Repente num Domingo e Atirem no Pianista. Toubiana me disse que ‘seu’ Truffaut varia segundo a época e as estações, mas que gosta muito de O Homem Que Amava as Mulheres. O próprio Truffaut amava as mulheres, mas Toubiana não concorda muito que fosse um romântico que desconfiava do romantismo. E ele acha que a paixão amorosa, até o limite da morte, é um tema que compõe uma fatia significativa da obra de Truffaut, mas não explica tudo, e com isso concordo. Há 50 anos, mais até, eu ainda não escrevia sobre cinema e lia P.F. Gastal, Jefferson Barros e Enéas de Souza na antiga Folha da Tarde, ou no Correio do Povo, em Porto Alegre. O homem que amava as mulheres… Naquele tempo, os críticos viam Truffaut por outro viés. A mãe de Os Incompreendidos, a terna e cruel Catherine de Jules et Jim, a mulher armada de fuzil que caça o marido adúltero de Um Só Pecado, a dualidade de Julie Christie em Fahrenheit 451, a vingativa Julie de A Noiva Estava de Preto, a desestabilizadora Sereia do Mississippi – muita gente reprovava o que via como a misoginia de Truffaut. Em que momento o misógino virou o apaixonado pelas mulheres? Foi sempre assim? Das duas caixas, revi apenas dois filmes, e da mesma. Justamente Um Só Pecado/La Peau Douce, por algo que disse Toubiana, e A Baía dos Anjos, de Jacques Demy, ambos na caixa da nouvelle vague. Quando se fala no Truffaut hitchcockiano, a tendência é pensar nos policiais com trilha de Bernard Herrman, com seu clima obsessivo. O próprio Truffaut era obsessivo como certos personagens. Toubiana considera Um Só Pecado hitchcockiano – o filme mais hitchcockiano de Truffaut? – porque é muito decupado. Truffaut nunca cortou tanto. São quase 800 planos e a cena do elevador, citada por Toubiana e que revi, é exemplar. A timidez de Jean Desailly, a beleza provocativa de Françoise Dorléac. É um sem fim de olhares, de cortes, de lábios, de mãos. Não creio que seja um grande filme, mas gostei de rever. E gostei muito de rever, mais até, o Demy. La Baie des Anges. Jeanne Moreau, loira platinada, faz uma jogadora compulsiva. Pauline Kael, até onde me lembro, era louca pelo filme. Faz observações bem pertinentes sobre ele em Kiss Kiss Bang Bang, mas não encontrei o livro para repercutir alguma. Deve andar por aí, na minha casa, soterrado sob montanhas de outros livros e DVDs. Mas me lembro que Pauline via Jeanne, em A Baía dos Anjos, como a Bette Davis francesa. Sua observação ficou comigo e tenho de admitir que conduziu meu olhar. E, como muitos, senão todos os filmes de Demy, Baie des Anges é melhor hoje.