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Tristeza

Luiz Carlos Merten

02 de maio de 2014 | 09h29

RECIFE – Na volta para o hotel, ontem à noite, após a exibição dos últimos concorrentes da competição internacional no Cine-Teatro Guararapes, já pensava no que iria escrever hoje sobre Romance Policial, de Jorge Durán, e Muitos Homens num Só, de Mini Kerti. A realidade me atropelou e, hoje pela manhã, ao chegar para o café no restaurante do hotel, já encontrei as pessoas com uma cara esquisita. Não era para menos. João Sampaio, na verdade João Carlos Sampaio, do jornal A Tarde, de Salvador, sentiu-se mal de madrugada e, levado para o hospital, morreu. De nada adiantaram as tentativas da equipe do RHP, o Real Hospital Português, para reanimá-lo. Estamos agora todos meio zumbis, processando a informação. João Sampaio devia ter 40 e poucos anos, um guri. Nunca fomos muito próximos, mas ele era a própria expressão da baianidade. Simpático, bonachão, chegou a ser ator no curta MPB – A História Que não Foi Contada, de André Morais, e ia fazer um pai de santo no longa que Sandra e Alfredo Bertini, o casal Cine PE, anunciaram há uns dois anos – Danou-se! (é o título). Nossa relação, embora superficial, era de cordialidade, e ele fazia perguntas pertinentes, quando participava dos debates, o que ocorria com frequência. João Nunes, de Campinas, fez o comentário que, nestes momentos,  passa pela cabeça de todo o mundo. É bom para quem vai. Rápido, sem sofrimento. É ruim, para quem fica. João tinha pais idosos, que agora vão passar por esse sofrimento. A morte próxima sempre desestabiliza a gente. Nos leva a encarar a própria finitude. Um dos mais belos filmes desse festival – o mais? -, o português E Agora, Lembra-Me, de Joaquim Pinto, já é sobre a morte. O diretor, soropositivo, aborda o tempo, a doença, a arte. Mas uma coisa é, justamente, a arte – o cinema. Outra é a morte aqui do lado da gente. A morte de João Sampaio vai ficar, para sempre, como a nota triste desse 18.º Cine PE.

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