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Trilogia samurai

Luiz Carlos Merten

19 de dezembro de 2012 | 20h59

Hiroshi Inagaki seria, no âmbito do cinema japonês, um artesão comparável a Michael Curtiz em Hollywood. Beneficiou-se das sólidas produções da Toho, frequentou diversos gêneros, com uma preferência especial pela ação, e recebeu muitos prêmios, incluindo o Oscar da Academia – pelo primeiro exemplar de sua trilogia samurai, ‘Musashi’, com Toshiro Mifune, que a Versátil está lançando em DVD. O filme inspira-se menos na figura real de Miyamoto Musashi, um célebre guerreiro japonês do século 17, que na peça de Hideji Hojo inspirada no livro que lhe dedicou Eiji Yokishawa, e que é considerado fundamental na construção do mito. Musashi é um jovem ambicioso que sonha com a glória militar, mas vira fugitivo no conturbado quadro de guerra civil que divide o país.  Salvo por um monge que lhe ensina o caminho da espada, o herói busca o adestramento em harmonia com a espiritualidade e vive segundo os preceitos do bushido, o código de honra dos samurais. O curioso é que Inagaki havia feito outra trilogia com o personagem nos anos 1940, mas as cópias foram recolhidas pelas autoridades norteamericanas que passaram a controlar o Japão, após a derrota do Exército imperial na 2.ª Guerra. Ainda nos anos 1940, Kenji Mizoguchi também contou a sua versão da história de Musashi, privilegiando, como era de seu feitio, o romance do samurai com a gueixa Akemi, para poder enfocar a situação da mulher na sociedade japonesa tradicional. A importância da segunda trilogia de Inagaki – o personagem de Mifune chama-se Takezo – está ligada ao estrondoso sucesso que os três filmes alcançaram no mercado norteamericano, superando ‘Os Sete Samurais’, de Akira Kurosawa, também com Mifune. Com o tempo, a Trilogia Samurai se transformou num dos filmes japoneses mais populares no mercado dos EUA – senão o mais popular -, com lançamentos em TV, VHS e DVD. Não duvido que já exista o Blu-ray, mas teria de pesquisar para saber. Filmado quase todo em externas – o 2 e o 3 têm mais cenas de estúdio -, foi o segundo filme mais caro da história do Japão, tendo custado cerca de US$ 500 mil em 1954. A extravagância deve-se em parte, senão toda, à exuberância das cores utilizadas por Inagaki e seu grande fotógrafo, Jun Yasumoto. Mesmo hoje em dia, com os recursos digitais de que dispõem os diretores para corrigir e saturar as cores, a beleza do filme de Inagaki continua exemplar – e impressionante. ‘Musashi’ não tem nenhuma cena como a batalha da chuva que impôs o gênio de Kurosawa em ‘Os Sete Samurais’, mas o que o diretor reconstitui do massacre na batalha de Sekigahara, quando morreram pelo menos 70 mil guerreiros, reacendeu no imaginário dos japoneses o horror do banho de sangue na 2.ª Guerra, e no holocausto nuclear de Hiroshima e Nagasaki. Com habilidade, Inagaki encena duelos de espada tão bem coreografados que, no terceiro filme, o embate entre Takezo, agora Musashi, e seu rival Kojiro deixa o público elétrico. Três anos depois de ‘Musashi’, o diretor ganhou em Veneza o Leão de Ouro com ‘O Homem do Riquixá’ e o novo êxito nos EUA consagrou Mifune como o maior astro japonês. Ele continuou fazendo grandes filmes com Kurosawa, até que romperam após ‘O Barba Ruiva’, de 1965. Conta a lenda que Mifune teria ousado interpelar Kurosawa publicamente sobre uma cena e o ‘imperador’, sentindo-se confrontado, reagiu nunca mais lhe dirigindo a palavra. Há um grande livro – na extensão, na pesquisa e na limpidez da escrita – que reconstitui a parceria e as trajetórias isoladas de Kurosawa e Mifune. Chama-se ‘The Emperor and the Wolf’ e o autor é Stuart Galbraith IV. O ‘lobo’, logicamente, era Mifune, muito à vontade no papel 100% físico de Takezo/Musashi. Confesso que, deste pacote da Versátil, por mais prestígio que tenha Maurice Pialat – ‘Sob o Sol de Satã’, que venceu em Cannes -, os DVDs que mais me atraíram foram ‘Musashi’, ‘A Solidão de Uma Corrida sem Fim’, de Tony Richardson – considerado uma das pedras de toque do free cinema inglês, por volta de 1960 -, e ‘A Garota de Trieste’, de Pasquale Festa Campanile, incensado por Jean Tulard, que o tem em alta conta no ‘Dicionário de Cinema’. Ben Gazzara e Ornella Muti, a dupla de ‘Crônica de Um Amor Louco’, de Marco Ferreri, são os protagonistas. Não resisti e ataquei logo o Inagaki. Campanile e Richardson vão ficar para depois.

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