As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Trilhas, a música dos clássicos

Luiz Carlos Merten

14 de abril de 2020 | 09h28

Acrescentei mais dois clássicos à minha lista para o online do Estado. Hiroshima, Meu Amor e A Liberdade É Azul. Adorei fazer principalmente o texto sobre o primeiro. Lembro-me como se fosse hoje. Assisti ao filme de Alain Resnais pela primeira vez, anos após o lançamento, numa sessão do Clube de Cinema de Porto Alegre, do qual não era sócio, apresentada por Jefferson Barros no antigo Cine Vogue. O recitativo de Marguerite Duras – ‘Qui es-tu? Tu me tues, tu me fais du bien’, ‘On faisait l’amour partout’. Essa fala é inesquecível para mim. É sobreposta às imagens do casal jovem – a garota francesa e o amante alemão, em Nevers. Ela, de bicicleta e ele olhando de longe, os dois entrando em qualquer buraco para ficar sozinhos para o amor, ao som daquele tema musical, um allegro de Georges Delerue. Há outro tema, mais grave, e o compositor também é outro- o italiano Giovanni Fusco. A mise-en-scène de Resnais – elegância, refinamento, intensidade. É, em definitivo, um dos filmes da minha vida. Como uma trilha leva à outra, os caminhos como a música, volto a O Poderoso Chefão III. Sempre me perguntei por que Francis Ford Coppola usou a Cavalleria Rusticana, de Mascagni e Monleone. As cenas mostradas desenham uma vendetta, até aí tudo bem, mas existiriam, talvez, outras óperas para o gran finale. Fui a um especialista. Meu amigo João Luiz Sampaio, além do prazer de voltar a conversar com ele, após um bom tempo, é cultura. João me esclareceu que a Cavalleria é das primeiras, senão a primeira ópera passada na Sicília. A par da riuqueza musical, representa um momento importante da ópera italiana. Guiuseppe Verdi colocou essa forma de expressão lá no alto, criando parâmetros difíceis, senão impossíveis, de igualar e, menos ainda, superar. A ópera italiana voltou-se para o realismo. Sicília, verismo = Giovanni Verga. O autor siciliano – nasceu em Lizzini – foi uma das inspirações de Luchino Visconti para Rocco e Seus Irmãos. Visconti chegou até a sonhar com uma adaptação de L’Amante di Gramigna, mas quem fez o filme, em 1968, um ano emblemático, foi Carlo Lizzani. No Brasil, chamou-se O Amor Nasceu do Ódio. Visconti, sempre Visconti. Tive oportunidade de entrevistar o grande Coppola. One a one. Falamos sobre Visconti, uma admiração de ambos. Ele admitiu que a trilha de Nino Rota bebe na fonte da de Rocco, que Rota também compôs, mas surpreendeu-se com minha interpretação de que Al Pacino, como Michael Corleone, o idealista que se impregna da violência por causa da Família, é o Alain Delon dele.

Tendências: