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Trapalhadas dignas de Inspetor Clouseau

Luiz Carlos Merten

01 de agosto de 2016 | 16h59

Na quarta, correndo para viajar e tendo matérias para deixar prontas, não tive tempo de me enfronhar e, menos ainda, de postar sobre o imbróglio na Cinemateca, cuja cúpula foi defenestrada por um ato do MinC publicado no Diário Oficial. Na volta, todo mundo já tinha sido reintegrado às funções. Como? Se esse governo estivesse fazendo com a economia as trapalhadas que comete na cultura, podem crer que o ‘Fora, Temer!’ já teria engrossado e se consumado. Em Cannes, soube num dia que o governo interino fechara o MinC e, logo em seguidas, que voltara atrás. É a casa da Mãe Joana. Mas pode piorar, vocês sabem. Sempre pode. Fui hoje pela manhã à cabine de Ben-Hur, o reboot do russo Timur Bekmambetov para o clássico de William Wyler que fez história ao ganhar 11 Oscars, incluindo filme e direção, em 1959. Na época, Hollywood estava perdendo a guerra para a TV, o público desertava dos cinemas e o épico religioso de Wyler foi um sucesso para ninguém botar defeito. Assinei um embargo que proíbe crítica até a estreia, no dia 18, mas vou arriscar que esse Bekmambetov não é fraco, não. Perguntava-me como ele conseguiria concentrar em duas horas os 212 minutos do filme de Wyler? Ele não só conseguiu como inverteu a estrutura narrativa, começando pelo ápice do filme antigo – e também da versão silenciosa de Fred Niblo nos anos 1920. Muito interessante, realmente. Mas o que quero dizer é que, hoje pela manhã, e lá mesmo no Ben-Hur, duas ou três pessoas já me informaram que há uma conspiração em marcha para impedir quer Aquarius, que ainda ainda nem foi lançado, seja escolhido como filme brasileiro a tentar a indicação para o Oscar. Kleber Mendonça Filho e o secretário do Audiovisual, Alfredo Bertini, não são os melhores amigos, mas seria bom se as desavenças permanecessem no âmbito do Recife. Tudo o que esse governo à Inspetor Clouseau não precisa é de mais inimigos. A comissão que vai fazer a seleção não foi anunciada e Marcos Petrucceli, ex-curador do Cine PE (de Bertini), já fez saber nas redes sociais que está dentro e aproveitou para esculhambar o Aquarius, com alguma provocação sobre a participação do filme fora de concurso em Gramado (como parte da homenagem a Sônia Braga). Um pouco de entendimento, por favor. Não sei quem já se inscreveu para pleitear a indicação, mas gostaria muito que, em 12 de setembro, meu presente de aniversário do MinC fosse o anúncio de que Aquarius vai representar o Brasil na disputa deste ano da Academia. Gostei muito de outros filmes brasileiros lançados em 2016, mas o Aquarius não apenas vai integrar minha lista de melhores do ano – estreia em 1.º de setembro, já o vi em Cannes, não se esqueçam -, como é muito elogiado na FilmComment e na Sight and Sound que comprei em Nova York, na cobertura que ambas as publicações fazem do festival. FilmComment também elogiou o Boi Neon numa edição precedente, mas, entre os dois, e mesmo gostando muito do Gabriel Mascaro, sou mais o Aquarius para o Oscar. Como existe um protocolo para concorrer ao Oscar – o filme tem de ser lançado e permanecer uma semana em cartaz no país de origem até determinada data -, não vejo muita chance de outros filmes embolarem a disputa.

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