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Transmidiações – conversas que envolvem teatro, cinema e televisão

Luiz Carlos Merten

01 de maio de 2016 | 09h39

Há um momento de Mulheres no Poder, de Gustavo Accioli, em que a senadora Pilar/Dira Paes diz para o motorista/assessor/amante que é mais fácil destituir um presidente do que demitir um funcionário concursado. Não sei exatamente em que momento a frase foi escrita, mas o efeito é da maior atualidade no filme que está para estrear, dias 5 ou 12. Estamos acompanhando essa ‘facilidade’ como novela diária. Já sabemos tudo sobre o ‘eventual’ governo Temer. Como todo mundo, desconfio da classe política e, se tivesse alguma esperança, ela teria se diluído na votação do impeachment na Câmara. Mesmo assim, um filme como Mulheres no Poder me deixa perplexo. Quem é essa gente retratada na tela? Essas mulheres que, na política, repetem a trajetória dos homens. Essas assessoras, esses lobistas? Tive a mesma sensação diante da ‘juventude’ que Neville D’Almeida, velho provocador, flagra em A Frente Fria Que a Chuva Traz. O título é ótimo, já o filme… Fui à internet e encontrei uma pérola – aqueles jovens são a versão ‘sincera’ de Malhação, disse um crítico (!). Bem, se isso é verdadeiro, é melhor ficar com a versão falsa, mesmo que nunca tenha visto a ‘atração’ da Globo, que até onde sei, por comentários dos colegas que cobrem TV, está tendo sua melhor fase nessa temporada, com números que superam os das novelas. (Vi, outro dia, um capítulo de Velho Chico e fiquei impressionado com a carga dramática. Era um capítulo inteiro sem romance nem alívio cômico, e com atuações em estado de graça de Umberto Magnani, que morreria no dia seguinte, e Zezita Matos. Não creio que Velho Chico esteja estourando de público, mas a força é indiscutível e Luiz Fernando Carvalho mostra, de novo, seu imendso talento.) A todas essas, estou lendo um livro que comprei no aeroporto – leitura de avião. O Príncipe da Pirataria, perdão, Privataria. É tudo a mesma coisa no livro do jornalista Palmério Dória. O lançamento é da Geração Editorial e, na apresentação, Luiz Fernando Emediato, primeiro editor do Caderno 2, diz que não tem medo de processo porque as acusações não são levianas, mas documentadas. E está todo mundo solto, por aí, com ares de salvadores da pátria. Onde andava o Sérgio Moro da vez, com suas prisões preventivas? Aaahhh, mas não tinha. Chega de tergiversação. Escrevi ontem um texto para a capa de hoje do Caderno 2, para acompanhar a entrevista que meu colega, o jovem Leandro Nunes, fez com Barbara Paz. Estreia na quinta, dia 5, a montagem que Eduardo Tolentino está fazendo de Gata em Teto de Zinco Quente, de Tennessee Williams. Gostaria de ter tido um espaço maior. Mestre do realismo psicológico, Tennessee escreveu todos aqueles textos que fizeram história. Ninguém expressou como ele os demônios das mulheres. Strindberg, talvez? Blanche Dubois, Maggie the Cat e Alexandra Del Lago são criações magistrais. Vou escrever algo que talvez soe sacrílego. No cinema, apesar de Elia Kazan (Um Bonde Chamado Desejo/Uma Rua Chamada Pecado, com Vivien Leigh e Marlon Brando) e Joseph L. Mankiewicz (De Repente, no Último Verão, com Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn e Montgomery Clift), prefiro as adaptações de Richard Brooks, Gata e Doce Pássaro da Juventude. Brooks pode ser acusado, com razão, de haver edulcorado Tennessee. Todas as sugestões do homossexualismo de Brick e seu tesão por Skipper, o amigo boleiro, são amaciadas quando não omitidas em Gata, mas é um filme que tenho sempre um prazer imenso de ver. Não apenas Elizabeth Taylor e Paul Newman, belos como deuses como Maggie e Brick, mas também Burl Ives/Big Dad, Judith Anderson/Big Mamma e Madeleine Sherwood, que morreu este mês (dia 23), como a cunhada, Mae Flynn, são magníficos. Em Hollywood, nos anos 1940 e parte dos 50, os casais dormiam em camas separadas. Uma coisa de cada vez. Mãezona discute com Maggie, aponta o dedo para a cama (de casal) e diz que os problemas de casamento estão todos ali. Só isso já era uma revolução em Hollywood, em 1958. E Liz com aquela lingerie! Dois anos antes, ela perdera o marido, o produtor Mike Todd, naquele acidente aéreo. Brooks quis liberá-la de fazer a Gata. Temia que a perturbação emocional da ‘viúva’ conturbasse sua adaptação, ou então, creio, era um genuíno interesse pelo drama pessoal que a estrela estava vivendo. Liz insistiu em fazer o papel. Simultaneamente, ‘roubou’ o marido da amiga, Debbie Reynolds. A Metro, que segurava o lançamento, alarmada com o erotismo que varria a tela e podia chocar as plateias (ainda) puritanas da época, resolveu lançar o filme com publicidade pesada. A sensualidade da Gata como reflexo da de Liz. O filme foi a maior bilheteria de Hollywood no ano, uma das dez mais da história do estúdio. A voz de Liz. E a narrativa, que ela faz, de Mae Flynn recebendo a cusparada. É coisa de louco. Brooks talvez não tenha edulcorado Tennessee. Como romântico que era, apesar da origem como jornalista que o levou a abordar temas fortes, polêmicos, ele ressaltou justamente o romantismo/lirismo presente na dramaturgia do autor. E os happy ends de Brooks nunca eram concessões ao gosto do público, mas resultado de sua visão do mundo e preferência pelo tema da segunda chance. Tempo para Amar, Tempo para Esquecer, com sua mulher, Jean Simmons e John Forsythe, é um filme duro sobre casamento. A cena em que Lloyd Bridges explica a Shirley Jones que o casamento é a base do sistema porque estimula o consumismo – as pessoas se casam e precisam de casa, com tudo o que vem dentro -, seria cínica se não fosse o tom compassivo dos atores. Tempo para Amar chama-se, ironicamente, no original, Happy Ending – e não tem final feliz, pelo menos o tradicional. Brooks fez filmes que estão no meu panteão. Lord Jim, com Peter O’Toole e a deslumbrante Daliah Lavi, e Os Profissionais, com aquele diálogo genial entre Burt Lancaster e Marie Gomez como Chiquita, a revolucionária que dava para todo mundo, alegremente, colocando seu corpo, em 1966, quando começava a contracultura, a serviço de uma revolução do prazer. Mesmo em À Procura de Mrs. Goodbar, em que Diane Keaton, segundo Jean Tulard no Dicionário de cinema, se considera uma mulher livre e é assassinada por um homossexual reprimido, não se trata de uma punição da personagem e seu comportamento libertário e sim, de uma acusação à sociedade, que Brooks dizia que evoluciona(va) na direção de uma selva onde não há mais justiça. Tulard encerra seu verbete sobre Richard Brooks com uma história linda. No fim, de uma sequência filmada, ele não gritava ‘Corta!’, como os demais diretores, mas dizia ‘Obrigado’. Essa curiosidade, sentencia Jean Tulard, define o homem e a obra. Gostei tanto de Anti-Nelson. Torço para que Tolentino faça outro belo espetáculo, mas morro de medo por causa de Brooks, e Liz,. tão vivos em meu imaginário. É uma das peças/montagens que estou morrendo de vontade de ver – com Rainhas do Orinoco, de meu amigo, e grande diretor, Ave!, Gabriel Vilela.