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Tragédias, a brasileira e a de Batman vs. Superman

Luiz Carlos Merten

10 de maio de 2020 | 13h17

Não há um santo dia em que não me lembre de O Mercado de Notícias, o belo filme (docudrama? Documentário nas bordas?) que Jorge Furtado fez a partir da peça de Ben Jonson. O filme é bastante duro com o Jornal Nacional, mas hoje talvez tivesse de ser reformulado, embora ninguém continue fazendo de forma objetiva as perguntas certas ao presidente. Mas tem sido engraçado ver William Bonner e Renata Vasconcellos com aquele ‘abre aspas’, ‘fecha aspas’, para expor o ridículo das ‘autoridades’. Ontem, não eram eles na bancada, mas as aspas foram invocadas para reproduzir trechos da fala da secretária da cultura (com minúscula, nesse governo), Regina Duarte – ia escrever a pobre mulher, mas seria desrespeitoso, até para ela -, que disse as maiores barbaridades em entrevista à CNN Brasil. É a mesma rede, segundo me dizem, e espero não estar reproduzindo fake news, que repete a toda hora outra entrevista, com Roberto Jefferson, sobre seu bom combate contra os vendilhões da pátria (deve estar rindo da nossa cara) e como o presidente é injustiçado. Ah é, Roberto, e nós, então? Tergiverso, mas é o que me resta, isolado em casa. Quando tudo isso acabar, e vai acabar, 70% terão sido infectados, milhares terão morrido, como informa o presidente, que obviamente acha que não tem nada a ver com isso. (É a vida.) Só me resta esperar que consiga sobreviver, com os entes queridos que me restam. (Tenho adorado a máxima de Candinho em Êta Mundo Bom! Tudo o que de ruim acontece com a gente, é para ‘meiorar’.) Preso aqui dentro, ando louco para viajar. Quando entram imagens de Portugal no noticiário da pandemia, tem aparecido na Globo uma praça próxima ao apartamento que alugamos em fevereiro. O Largo do Carmo, no Chiado. Um quiosque, aonde íamos, no final da tarde, para um trago, apesar do frio, e ao qual me transporto, cada vez que vejo aquilo. Gostaria de voltar. Comentei ontem com a Lúcia, por telefone. E ela, que também cumpre quarentena há 50 dias – ‘Ai, vamos!’ Acabo de fazer um texto para os filmes da TV do Estado. A Globo apresenta nesta segunda, 11, na Tela Quente, às 22h40, Batman vs. Superman – A Origem da Justiça. Zach Snyder! A rigor, não creio que Snyder seja maior cineasta que Christopher Nolan, que fez a trilogia do Batman, mas, em certo sentido, sim, ele é maior porque é mais autoral. Snyder não serve o Universo Marvel, mas serve-se dele para construir o seu universo. Existe uma jovem crítica que se lixa para a fidelidade aos clássicos da literatura e do teatro, mas esbraveja com as liberdades que Snyder toma. Bem-vindos ao mundo da cultura pop. O pai, em Superman, a mãe, em Batman vs. Superman. Snyder começa o segundo pela morte dos pais do Morcego, não exatamente para repetir Chris Nolan, que já mostrou a cena, mas porque, quando Batman e Superman entrarem em rota de colisão, insuflados por Lex Luthor, Superman vai querer interromper a luta para salvar sua mãe, a Martha Kent de Diane Lane, e o pedido reverbera em Bruce, que já perdeu a mãe dele. Aproveito para citar um livrinho – no tamanho – que havia desaparecido na confusão dentro de minha casa. Batman e Superman no Cinema: Histórias, de André Azenha. Localizei-o. É bem interessante, e documentado. Não concordo justamente com a abordagem sobre Zach Snyder, mas Azenha entende que ele se afasta do Universo Marvel, talvez só não acerte, ou aceite, por quê. A Snyder interessa o mito, não a mitologia das HQs. O mito grego, a origem da Justiça é a origem da Tragédia (com maiúscula). Muita gente reclama da tristeza do Superman de Henry Cavill. É o xis da questão. Cavill tem o rosto insondável e misterioso da Garbo. Para muitos críticos, inclusive Azenha, mantém sempre a mesma feição, causa estranhamento. Eles sentem saudade de Christopher Reeve. Mas no rosto de Cavill, semiologia pura, pode-se ler tudo – depende do olhar de quem vê, como sobre a Garbo. O mais incrível é que Snyder já vinha construindo a tragédia nos seus blockbusters, antes de ser atingido pela tragédia na vida pessoal, com o suicídio da filha. A ressurreição no posterior A Liga da Justiça, finalizado por Joss Whedon, é, ao mesmo tempo, um ato de redenção e o desespero de um pai que daria tudo para mudar a história. Rodrigo Santoro me fala sempre com imenso carinho e admiração sobre o Snyder e a mulher, Deborah. Amanhã tem Superman na Globo. A HQ como forma de oração no cinema.

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