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Toy Story 4, uma história de perdas, ganhos e o novo realismo na tela

Luiz Carlos Merten

22 de junho de 2019 | 09h45

Fui – é tão estranho dizer havia ido – a alguns velórios na Cinemateca Brasileira. Walter Hugo – Khouri. Hector – Babenco. Andrea – Tonacci. Fui na quinta prestar minha homenagem ao Rubens – Ewald Filho. Aquele cara enorme me pareceu tão pequeninho, como se houvesse encolhido. A fragilidade da matéria humana. E os óculos! Nunca vi o Rubinho sem eles, que completavam a persona. Davam-lhe um ar austero, realçavam o aspecto professoral – de quem sabia tudo sobre cinema. Contavam-me, e pediam reservas, coisas terríveis. As possíveis sequelas da queda naquela escada rolante. E, ali, nosso amigo morto. Tão calmo, tão plácido. Não vou repetir – adeus, Rubinho. Porque ainda espero pesquisar muito no Dicionário de Cineastas, n’Os Filmes de Hoje na TV. E, quando o fizer, ele estará vivo na lembrança. Uma pessoa só morre – morre mesmo – quando ninguém mais se lembra dela. Ciao, caro. Naquele mesmo dia fui ver no fim da tarde o Toy Story 4. Cheguei no Cinemark do Eldorado, e todas as sessões estavam lotadas. Estava de bengala e, com a autorização da gerente – era uma mulher -, permitiram-me ocupar uma daquelas cadeiras reservadas da frente. Será que foi a minha sensibilidade aguçada por tanta coisa que tem ocorrido? Porque, ao deixar a sala, duas horas mais tarde, meio atordoado pelos aplausos espontâneos em que o público prorrompeu, no fim da sessão, eu era capaz de jurar que o 4 era o melhor de toda a série. O 3 terminava daquele jeito, de cortar o coração, quando Andy, cumprindo o rito de passagem, dava seus brinquedos a Bonnie. Impossível não pensar, pelo menos eu, no desfecho do western clássico Os Brutos também Amam, de George Stevens, quando Shane/Alan Ladd, cumprida sua missão na cidadezinha do Oeste, despede-se de Joey/Brandon De Wilde, e parte, envolto na majestade de seu mito. Toda a ação, toda a aventura era filtrada pelo olhar de Joey, e agora ele chama – Shane, Shane! – e o pistoleiro não se volta, nem para um derradeiro gesto de despedida. Existe ali uma perda, e um ganho. Joey deixa de ser criança e vira homem. Toy Story 3 encerrava-se com essa nota realista. No 4, tudo o que Woody, o boneco caubói, faz é para salvaguardar a infância de Bonnie. Isso significa doar-se integralmente para o outro – compaixão, solidariedade? -, não medindo esforços para proteger o novo amigo que ela, literalmente, fez, Garfinho. Como diz o diretor Josh Cooley – olha o spoiler -, Toy Story 4 encerra a história de Woody na franquia. É como se fosse uma despedida. Achei de uma beleza sem fim, e não é de hoje que a animação, mais do que qualquer outra forma de ver, e fazer, cinema, põe em xeque meus dogmas. Acho ótimo, porque não quero, nunca quis, enquadrar os filmes numa hipotética definição do que acho que deva ser o cinema. Quero ver, sempre, cada filme como se fosse o primeiro, com maravilhamento. O importante teórico francês André Bazin deixou uma série de escritos editada sob o título ‘O Que É o Cinema?’ Ele morreu nos anos 1950, e sua teoria foi formulada a partir do impacto que lhe produziram o neo-realismo italiano, o uso da profundidade de campo por diretores como William Wyler e Orson Welles, a escola russa de montagem. Bazin teria de ter vivido mais 50 anos para assistir ao advento das novas tecnologias, para ver o cinema inteiramente criado no computador. Estou pensando no Gollum, de O Senhor dos Aneis, mas também nas novas ferramentas que mudaram a face da animação desde que a Bela e a Fera dançaram no computador e John Lassseter criou, na Pixar, o primeiro Toy Story. Lembro-me o escândalo que foi, no meu pequeno círculo, quando anos atrás, ao escolher os melhores do ano, cravei Ratatouille como o melhor dos melhores. Como? Havia, na época, uma supervisora de área que decidiu que o melhor deveria ser A Vida dos Outros – e eu concordo que o nome do diretor alemão Florian Henckel Von Donnersmarck é muito mais pomposo que Brad Bird -, e foi esse que prevaleceu. O que eu creio, profundamente, é que, hoje, as técnicas de animação, e reprodução da figura humana por meios digitais, aprimoraram-se de tal maneira que estão afetando nossa percepção do realismo no cinema. Lamento por quem ainda torce o nariz para as aventuras/desventuras de Woody como coisa de criança. Até pode ser, mas a dimensão é muito maior, e mais densa. É como eu não me canso de dizer – o cinema, qual lanterna mágica, não cessa de me/nos surpreender.

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