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Torre das Donzelas, finalmente!

Luiz Carlos Merten

23 de setembro de 2019 | 09h35

Quase um ano depois, consegui ver ontem Torre das Donzelas. Na Mostra do ano passado, até fui à sessão, mas sem convite. Circulei no local, a diretora disse que me viu, mas, sem ter encontrado ninguém conhecido para entrar – na bilheteria me disseram que estava lotado -, desisti. Ofereceram-me o link, mas preferi pagar ontem e ver o filme no PlayArte Center. Aliás, foi outro fator de desconforto. O filme está em duas sessões, em dois cinemas, praticamente no mesmo horário – 19h20 e 20 h. Gostaria de ter tido alternativas, ver à tarde para poder ir ao teatro à noite. Não deu, mas valeu a pena. Sala com bastante gente, embora não lotada, público aplaudindo no final. Jantei depois com Orlando Margarido e ele me contou das polêmicas que o filme levanta/levantou. Não é todo mundo que aplaude/aceita o formato adotado pela diretora Susanna Lira. A Torre das Donzelas foi a penitenciária feminina em que a ditadura cívico-militar confinou mulheres presas por sua vinculação com a resistência ao regime. Como não existiam registros filmados e a ‘torre’ foi demolida em 1972, Susanna reconstruiu o espaço e misturou depoimentos com cenas reconstituídas. Uma das mulheres era a ex-presidente Dilma Roussef, que fala com clareza e lucidez exemplares. Interessante como Torre das Donzelas, no fundo, fechou perfeitamente com o Inferno, espetáculo de teatro de André Garolli que também aborda as possibilidades de aprisionamento que a sociedade pode levar as pessoas que são ‘contra’. A história repete-se, volta e meia somos surpreendidos por denúncias de torturas – os seguranças de supermercados -, e aí todo mundo finge que se escandaliza. Na guerra civil não declarada que aflige segmentos bem específicos, as balas perdidas também seguem fazendo vítimas. E daí que morreu mais uma crianças, enquanto não forem as nossas parece que está tudo bem. Não está. Nunca tive dúvida de que a intransigência de Dilma Roussef em negociar com Eduardo Cunha e seus asseclas no Congresso ajudou a paralisar o governo dela, construindo o mito da incompetência administrativa, também imputada a Salvador Allende, no Chile. Dilma resistiu aos congressistas, como havia resistido a seus torturadores, mas agora, no quadro de um Brasil mobilizado por protestos, deu no que deu. Gostei de ter visto o filme e conhecido aquelas mulheres. Discussões intelectuais de alto nível, reflexões profundas, tudo muito diferente da pobreza de conteúdos que tem dado o tom do hospício que virou esse país. Foi feita toda uma mobilização em torno ao tema da corrupção como o grande mal brasileiro, mas agora, com o novo governo atolado, seu mentor intelectual vem a público, do seu reduto na Virginia, para dizer que o problema do Brasil nunca foi a corrupção, mas o Foro de São Paulo, o comunismo. Socorro! Torre das Donzelas é importante, é necessário. E, com toda a desgraceira, não falta humor àquelas mulheres. Comprometidas com mudanças comportamentais, sociais e políticas, sonhando com a revolução e fundindo, na sua prática, Marx e orgasmo, deixam claro que não eram ‘donzelas’. Muito corajoso.

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