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Toque de classe

Luiz Carlos Merten

22 Setembro 2013 | 11h58

Confesso que sou completamente voyeur da ardente sexo de sexo entre Anna Mouglalis e Mads Mikkelsen no filme de Jan Kounen sobre a ligação da estilista com o compositor. Mikkelsen é viril, tem uma pegada forte e aquela mulher é uma escultura – angulosa, e linda. Com todo meu voyeurismo, não é minha cena preferida, porque a reconstituição da Sagração da Primavera, e do caos que a obra provocou, é uma desconstrução brilhante, no estilo do desfecho de A Queda do Império Romano, de Anthony Mann, que Glauber deve ter visto em Cannes, no ano de Deus e o Diabo na Terra do Sol, porque Terra em Transe sai todo das imagens de Sophia Loren, como ‘Lucila’, correndo nas ruas de Roma e conclamando os cidadãos a reagirem enquanto o império é leiloado. Por que estou citando isso? Não sabia que existia uma terceira Coco Chanel nas telas, além das de Anna Mouglalis e Audrey Tautou (cujo filme é fraquinho). Estava zapeando pela manhã, antes de vir à redação do Estado para fazer o destaque de TV de amanhã, quando vi, no MGM, Shirley MacLaine de um jeito que disse – só pode ser Coco. E era. Christian Duguay fez a sua Coco Chanel para TV, acho que no formato minissérie, porque não pude desgrudar o olho mas era só o primeiro capítulo. Katharine Hepburn havia feito Coco na Broadway, e num musical. Ela era magra, como a verdadeira Gabrielle (era seu nome) aparece nas últimas fotos de ‘Mademoiselle’, sempre com aqueles tailleurs que fizeram sua glória. Shirley não só emagreceu como se transformou na velha Chanel, com sua boca amarga (e fumando compulsivamente). A jovem, em flash-back, é Barbora Bobulová. Na série, Coco começa arrasada. Recebe críticas ferozes por uma nova coleção e, em crise, viaja nas lembranças. Como diz, a gente aprende com os erros, não com os êxitos. A parte do passado é uma linda história de amor, pelo menos o começo, Gabrielle e seu lorde, que fez dela ‘Coco’, mas não teve coragem de desafiar as regras de seu mundo, casando-se com a costureirinha e a essa altura, cansada de ser ‘amante’, ela queria iniciar sua carreira. Lembram-se da cena de O Diabo Veste Prada em que Meryl Streep dá uma aula de moda para a inexperiente Anne Hathaway? Aquilo era a teoria, aqui temos a prática. Coco, prostrada, vê a sobrinha pronta para sair para um coquetel. A garota parece uma árvore de Natal, ela se levanta, arranca todos os penduricalhos, puxa um pedaço da cortina transparente e faz uma écharpe. Voilà – o pretinho básico e o toque de classe. Maravilhoso. Shirley MacLaine! E não é que, aos 80 anos, que já deve ter, ela ainda consegue me surpreender?