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Tonacci e a euforia selvagem de Bang Bang

Luiz Carlos Merten

17 Dezembro 2016 | 10h27

Na sexta pela manhã, antes da cabine, encaminhei duas galerias que me haviam sido encomendadas para o portal. Os 70 anos de Steven Spielberg, para o domingo, 18, e uma lista dos melhores filmes estrangeiros do ano que se encerra. Passei pela Figueira, no almoço da Warner, e curti os trailers, com a line-up da distribuidora para 2017. Fiquei doidão por Kong e pelo Arthur de Guy Ritchie. Corri para o Maksoud, onde entrevistei Sidney Magal – por Magal e os Formigas – e só depois fui para o jornal. Cheguei tarde, às 5 da tarde, cheio de textos para redigir. Tive de acrescentar mais um, que gostaria de não ter escrito – o necrológico de Andrea Tonacci. Não sabia da gravidade de seu estado de saúde. Na quarta, até me lembrei do casal. O táxi desviou e passou pela casa, na Água Branca, em que Tonacci vivia com Cristina Amaral. Foi onde o entrevistei. Sentamo-nos na parte coberta, mas com a lateral livre, para um café. Ao fundo, coberto, como uma relíquia, estava o carro de Serras da Desordem. Eu gostava muito de Tonacci, mas tenho de admitir que talvez gostasse mais até do homem, um fidalgo, que do artista. O ‘meu’ Tonacci segue sendo o de Blablablá e Bang-Bang, referências do cinema marginal cujas imagens nunca deixam de me assombrar. Paulo César Pereio com aquela máscara de macaco, a discussão com o motorista de táxi e o trio de bandidos boçais. São imagens que não perdem a capacidade de surpreender, e maravilhar. Há nelas um jorro de revolta, e também uma euforia, uma alegria selvagem. De ousar, de fazer, de contestar. Comparativamente, muito filme de jovem feito hoje parece coisa de velho. Não têm esse escracho. Enquanto escrevo, estou me lembrando de Toni Erdmann, de Maren Ade, que tem um tanto disso, vocês vão ver. Tonacci era um gentleman, virou ídolo da nova geração de críticos. Gostava de vê-lo em Tiradentes, na Mostra Aurora. Extra-territorialidade – extra-mercado. Não sou burro de não reconhecer a importância do Serras, mas sempre impliquei com um detalhe nada irrelevante. Quando Carapiru fala seu longo discurso, no final, eu gostaria de saber o que diz. Entendo os motivos pelos quais Tonacci não usou legendas – para destacar a solidão do índio, sempre deslocado, e a dele próprio, que, como expoente do cinema marginal, se sentia igualmente marginalizado. Entendo, mas não sei se aceito integralmente. Se fosse uma ficção, sem problema. Mas o filme, mesmo nas bordas, é documentário e Carapiru é uma figura real, não uma marionete. Alguma coisa, do ponto de vista ético, me constrange nessa decisão autoral, conceitual. O mundo pode não querer ouvir Carapiru, mas eu quero. É um pouco como outra decisão que acho discutível, em Martírio. No fim de seu documentário sobre a espoliação dos cayowás, Vincent Carelli salta do carro, anda uns passos na estrada, olha para a câmera e chora. Eu, que sou tão emotivo – e chorei pelo Tonacci, admito -, paralisei no Martírio. Enfim, Tonacci. Imaginava que talvez fosse vê-lo, na próxima Mostra de Tiradentes, em janeiro. Spielberg chega aos 70, eu estou com 71, Tonacci morre aos 72. A vida passa, a arte permanece.