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Tom na Fazenda encara o retrocesso com montagem forte

Luiz Carlos Merten

14 de abril de 2019 | 22h47

Deixei de assistir à premiação do É Tudo Verdade, porque pensei que seria o último dia de Tom na Fazenda, e não queria perder a peça de Michel Marc Bouchard que inspirou o filme de Xavier Dolan! Pronuncia-se ‘Zaviê’. Críticos adoram celebrar que Orson Welles tinha 25 anos quando fez Cidadão Kane e Glauber, também 25 anos, quando estreou Deus e o Diabo. Já com Dolan sinto má vontade. Ele completou 30 anos em março e, desde os 20, com Matei Minha Mãe, todos os seus filmes têm integrado a seleção de Cannes. Jovem, bonito e talentoso – ai que ódio! (não meu.) Tenho meus preferidos entre seus filmes – Mommy e É Apenas o Fim do Mundo. Queria muito ver a montagem de Tom na Fazenda. Armando Babaioff, que conheci no cinema por meio de Luiz Carlos Lacerda – Introdução à Música do Sangue -, é o protagonista, além de tradutor do texto. Chega à fazenda para o funeral do companheiro. Descobre que ele nunca deu bandeira de sua existência para a mãe. Mas o irmão sabe. Iniciam uma relação tortuosa. O irmão, Francis, amava o falecido. Termina por amar Tom, mas vive sempre esse conflito entre ser machão ou aceitar a própria sexualidade. Quando se fragiliza, colhe a ira de Tom. Amor e ódio. O barro humano, o barro ancestral. No passado, incapaz de aceitar a ambivalência do irmão, Francis cometeu um crime brutal, que Tom agora… Olha o spoiler! O cenário é nu, água e barro. Babaioff contracena com Gustavo Vaz. Babaioff fica nu, Vaz, sem camisa. Benza Deus! Dava para sentir o frissom de metade da plateia – metade? Gostei muito de ter visto Tom na Fazenda (no Sesc Santo Amaro). Tom permanece após o funeral e ajuda Francis na fazenda. Fazem o parto de uma vaca, o que os aproxima, mas a cena chave é uma dança dos dois, encenada como luta greco-romana e que termina em pegação. É curioso que montagens como as de Tráfico – vejam post anterior – e Tom na Fazenda estejam surgindo justamente nesse momento de retrocesso. Desde o golpe do impeachment, avalizado pelo Napoleão de hospício – adoro a etiqueta que Carta Capital colou em o.v. -, o Brasil tem andado ladeira abaixo em termos de violência, desrespeito aos direitos humanos básicos, crises econômica, política e ética. A peça é de 2011, o filme, de 2013. Se Bouchard foi profético, antecipando a merda toda, Dolan fez o filme que o texto exigia e Portella (e seu elenco) a montagem que o Brasil necessitava. No final, descobri que o Sesc prorrogou a temporada – hoje seria o anunciado último dia – e eu poderia ter ido ao fecho do ETV, deixando para ver Tom na Fazenda nas próximas duas semanas. Foi melhor assim. No fim de semana que vem, estarei em Porto Alegre, para a Páscoa – quero ir à encenação da Paixão de Cristo no Morro da Cruz – e, na sequência, tenho a minha cirurgia (sobre a qual não quero falar), antes de Cannes. Recomendo a montagem. O crítico de cinema foi ao teatro. Gostei!