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Tolentino e a ronda amorosa do seu (inteligente, supimpa!) Anatol

Luiz Carlos Merten

19 de agosto de 2018 | 11h49

Fui ver ontem o Anatol de Arthur Schnitzler, com tradução e direção de Eduardo Tolentino – sempre me esqueço do ‘de Araújo’ -, no Teatro João Caetano. Vou poupá-los da descrição do que foi minha épica jornada de volta para casa. Uma odisseia noturna digna da de Ulisses. Nesse mundo de aplicativos – a modernidade! -, não existem mais táxis de rua. Quando encontrei um, era dirigido pelo Travis, fugido da obra cultuada de Martin Scorsese. Volto ao Schnitzler. Na saída, encontrei o Tolentino, sempre afetuoso, que me perguntou se eu tinha captado (terá dito percebido?) o La Ronde? Claro, e foi o que mais me encantou. Anatol é uma espécie de comédia dramática em seis quadros que abordam as relações afetivas e sexuais entre homens e mulheres. No primeiro quadro, Max chega para levar o amigo Anatol ao próprio casamento, no qual será padrinho, mas ele acordou perdidamente enamorado de uma antiga amante, que ocupa nesse momento o seu leito. Anatol não quer mais se casar, porque finalmente descobriu o significado do verdadeiro amor. As histórias vão por aí e constantemente colocam em xeque amor, amizade, fidelidade, traição, adultério. Schnitzler tem tiradas ótimas sobre o comportamento das mulheres que talvez sejam ‘misóginas’ ou ‘de mau gosto’, nessa fase de empoderamento. Havia um casal na minha frente. Quando ele ria dessas piadas, ela o encarava com seriedade. Talvez tenham tido de conversar no jantar, o que não seria mau, considerando-se o número de pares que vejo, cada um em seu celular, toda noite. Anatol atravessa os seis quadros – atos?-, e eles compõem a tal ronda amorosa a que Tolentino se referia. Vienense, como Freud, Schnitzlçer viveu intensamente a chamada Belle Époque – e a própria psicanálise, que impregna sua obra. Max Ophuls, o cineasta da valsa – preferido de Stanley Kubrick -, verteu-o para o cinema. Ophuls, com seus movimentos de câmera, operava de dentro do romantismo aristocrático e burguês, a destruição do último, que considerava vulgar. Tolentino prepara o clima desde que a gente entra no teatro. A valsa está tocando e segue durante as ligações entre atos, quando os atores, no escuro, preparam o cenário. Gostei demais. E os atores (Bruno Barchesi, que faz Anatol, Adriano Bedin, o Max, e todos os demais) representam na medida. Um naturalisamo que incorpora a artificialidade (de classe) e produz aquilo que me eu querido Gabriel Villela tanto ama no palco – o distanciamento crítico, que só atores com pleno controle de sua arte atingem. Anatol segue até o dia 26 – fim de semana que vem. Recomendo, se isso significa alguma coisa.

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