As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tô voltando

Luiz Carlos Merten

07 de agosto de 2020 | 19h42

Fiquei quase meia-hora parado, olhando para a página em branco do que será esse post. Pode ir armando o coreto e preparando aquele feijão preto, estou voltando. Caro diário, Nanni Moretti! Não está sendo fácil. Tive complicações no pós-operatório. Elas minaram minha resistência. Precisei canalizar toda a energia para a atividade diária no jornal. Deixei de postar, parei com os Clássicos do dia. Não ajuda muito ficar com a TV ligada no noticiário. A desgraceira que virou esse Brasil. Se fosse comédia, seria italiana, e das ruins. O elenco. Bolsonaro, o maresciallo, fanfarrão. Paulo Guedes, o farfante, velhaco. As novas do desmatamento não param e o ministro do mata-ambiente conseguiu encontrar a tribo dos sonhos dele. Índios que querem mineirar, deflorestar. Bravo! Pergunto-me se vale a pena ir adiante – com o post. Tivemos perdas importantes nos últimos dias, ou semanas. Sergio Ricardo! Todo mundo lembrou a trilha de Deus e o Diabo na Terra do Sol, o violão quebrado quando ele reagiu à vaia do público a Beto Bom de Bola, no 3.º Festival da Record. O ‘meu’ Sergio Ricardo é o do curta O Menino da Calça Branca e do longa Esse Mundo é Meu. Léa Bulcão! Revi o segundo numa sessão da Mostra no Belas Artes, não faz muito tempo. Teria de pesquisar para ver quando. Éramos poucos na sala, pouquíssimos. Morreu também Alan Parker, que eu nem sabia que era Sir. Parker fez todos aqueles musicais (Fama, Pink Floyd – The Wall, Os Commitments, Evita), mas eu confesso que acho mais interessantes seus filmes de denúncia – contra a ditadura turca (Expresso da Meia-Noite), a guerra (Asas da Liberdade) o racismo (Mississippi em Chamas). Ele colheu um grande sucesso de público com o fantástico Coração Satânico, investigou o casal em A Chama Que Não se Apaga. Veio da publicidade e o realismo meio glamourizado de seu cinema me batia nos nervos. Parker foi jurado da Mostra, acho que em 2010. Era louco por futebol e foi a um jogo do Coríntians, mas achou que o juiz estava roubando – em favor do time da Fiel – e ficou puto. Lembro-me de tê-lo erntrevistado. Foi simpático, apesar do meu pouco entusiasmo. Leon Cakoff fez da Mostra uma grandse vitrine do cinema autoral, mas tinha esses gestos de independência. Não lembro se, antes ou depois do Alan Parker, trouxe também o Phillip Noyce, que se definiu, para mim, como um bom soldado do cinemão, mas veio apresentar seu filme talvez mais pessoal – Geração Roubada, sobre um episódio sionistro da história australiana, quando crianças aborígenes foram separadas legalmente de seus pais para servir em casas de famílias brancas. Malgrado o horror, faço o post para anunciar que estou voltando. Até os Clássicos estou retomando e, nos últimos dias, fiz o McCabe and Mrs. Miller de Robert Altman (Quando os Homens São Homens) e o They Shoot Horses, Don’t They?, de Sydney Pollack (A Noite dos Desesperados). Vida que segue.

Tendências: