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Tiradentes em São Paulo

Luiz Carlos Merten

08 de julho de 2013 | 10h07

Vi ontem pela manhã um pedaço de Forrest Gump, a parte final do filme de Robert Zemeckis com Tom Hanks, que passava na TV paga. Não tinha uma grande memória do filme, mas me lembro de haver encerrado meu livro de 1995, Cinema, Um Zapping de Lumière a Tarantino, justamente com a história do contador de histórias. É curioso como ontem vi o filme como se fosse a primeira vez e me impressionou a juventude de Tom Hanks, o brilho dos olhos, o espanto de quem vive a vida num permanente alumbramento. Bem perto do fim, Forrest visita a sepultura da mulher e fala com ela. Quem já fazia isso era John Wayne, o Capitão Nathan Brittles, em Legião Invencível, She Wore a Yellow Ribbon, de John Ford, segundo filme das trilogia da Cavalaria, em 1949. Forrest disserta sobre o sentido da vida, levanta a possibilidade de que nosso destino esteja escrito, mas também que sejamos partículas levadas pelo vento. E aí vem a cena final. Ele espera o ônibus escolar com o filho, diz que ama o menino e ele, o filho, leva para a escola o livro que a mãe de Forrest lia para ele, quando também era criança. De dentro do livro cai a pluma e ela, que abre o filme, também o fecha, ondulando ao vento, frágil como a matéria humana. Achava piegas das outras vezes, mas ontem me toquei, a imagem me tocou. Estava debilitado, é verdade. No sábado, participei de um debate da Mostra Tiradentes em São Paulo, no CineSesc. Fora do Centro e no Centro do País. A sala estava um gelo e, em mais de um momento, cheguei a pensar em pedir que desligassem o ar. De noite, já estava mal, ontem piorei – nem fui ao debate sobre o cinema paulista, no mesmo local. Fora do Centro. Nossa mesa debateu justamente o conceito, com diretores de Fortaleza, do Recife e de João Pessoa. Fora do Centro engloba, na verdade, um duplo conceito, econômico e estético. O cinema feito sem editais, com pouco ou nenhum dinheiro. Mas o Centro é também um conceito de cinema narrativo, clássico ou tradicional, e o que a nova geração de autores que vai a Tiradentes e participa da Mostra Aurora faz é questionar esse cinema da ordem narrativa. Invenção, desconstrução, narrativas rarefeitas e personagens idem. Lembrei que também eu sou Fora do Centro. Embora já fosse um veterano em Porto Alegre, quando cheguei a São Paulo era um principiante, numa terra estranha. Cavei no Estadão a minha trincheira. Em Porto Alegre, fui cria de uma geração de grandes críticos – Jefferson Barros, José Onofre, Enéas de Souza. Antes deles, havia o Gastal, P.F. Enéas, que trocou o cinema pela economia, voltou, como bom filho, ao cinema, na revista Teorema Jefferson e José Onofre morreram, como Marco Aurélio Barcellos e Luiz César Cozzatti, outros guerreiros. Em Porto, naquela época, a nova tecnologia, barata, era o Super-8 e surgiu uma verdadeira indústria de longas, alguns muito bons, na bitola. Fora do Centro e no Centro. Foi minha trajetória como jornalista de cinema, mas penso que também é, e muito mais, a de Jorge Furtado e da Casa de Cinema, parceiros da poderosa Globo, e ninguém engloba mais o conceito de ‘Centro’, no audiovisual brasileiro, que a empresa. Às vezes, sinto-me esquizofrênico, amando o cinema Fora do Centro e o do Centro. Tiradentes é minha menina dos olhos, mas não rejeito os blockbusters, nacionais nem internacionais. Como poderia? Impossível decifrar o Brasil contemporâneo sem o Capitão Nascimento e Dona Hermínia. E o Homem de Aço, então? Há um pouco de quem, de quem? – de Rocco! – no pungente sentimento de deslocamento que aflige o personagem de Henry Cavill no filme de Zach Snyder, sempre tentando descobrir quem é, por que tem esses poderes especiais e, no limite, o que fazer, eticamente, com eles, herança de seus dois pais, o galáctico e o terráqueo. Por falar em pais, temo ter sido injusto no debate de anteontem no CineSesc. Citei repetidas vezes dois filmes – Matéria de Decomposição, de Pedro Aspahan, e Ferrolho, de Taciano Valério, que amo, e disse que teria feito um carnaval, se estivesse no júri, como fiz no ano de Estrada para Ythaca, dos irmãos Pretti e primos Parente, para garantir que Ferrolho chegasse entre os vencedores, o que não ocorreu. Mas, nessa de citar Ferrolho e Matéria de Decomposição, ignorei o vencedor da Mostra Aurora de 2013, Os Dias com Ele, de Maria Clara Escobar, que parte numa viagem em busca de seu pai, o dramaturgo e filósofo Carlos Henrique Escobar. Como se filma alguém que não quer ser filmado? Puta filme. Viajei, emendando uma coisa na outra, mas se conseguir despertar minimamente a curiosidade para que vocês vejam esses filmes na Mostra Tiradentes em São Paulo, que segue até quinta – e terá novo debate na quarta -, já vou ficar bem feliz.

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