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Tiradentes (8)/O lugar da fala

Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2018 | 15h06

TIRADENTES – É verdade que, após ver Como Nossos Pais quatro vezes, acho o filme de Laís Bodanzky bom, mas não tão bom. Tenho escrito sobre isso. Mesmo assim, não creio que ela tenha pensado em mim ao dar entrevista no Globo. Saiu na capa de hoje do Segundo Caderno, uma antecipação dos dados que seriam apresentados nesta quinta pela Agência Nacional de Cinema, Ancine. Com poucos negros e mulheres, o setor não reflete a realidade do País. Não reflete mesmo, vamos lutar contra isso. Não creio que Laís se referisse a mim ao dizer que críticos homens e brancos estão julgando o que é interessante e que o poder de decisão é dos homens, muitos deles mais velhos e sem capacidade de abraçar novidades. Talvez a fala tenha me incomodado porque, tecnicamente, sou um velho. Não decido nada, no máximo influencio. Mas, como esses velhos indesejáveis, tenho de me aposentar, é isso? Assisti hoje em Tiradentes ao que deve ter sido o equivalente do massacre de Daniela Thomas em Brasília pelo seu Vazante, do qual nem gosto muito. Elogiei no post anterior Ara Pyau – A Primavera Guarani e, na sequência, fui ao debate para ver o diretor Carlos Eduardo Magalhães ser massacrado pela crítica. Bye-bye, Barroco (o troféu da Mostra Aurora). Carlos Eduardo revelou que foi diretor contratado e utilizou sua experiência como diretor, inclusive de publicidade, para satisfazer o cliente – os guaranis. Isso não se diz numa mostra como Tiradentes, mas ele ainda provocou mais ira ao dizer que existem cineastas indígenas que poderiam muito bem ter feito o filme. Citou o que o levou à tribo, autor de três filmes e o terceiro, muito belo, nem parece filme de índio. Todo mundo entendeu o que ele estava querendo dizer – esse terceiro filme não tem índio, narra uma história de amor, mas foi feito, de forma muito bonita, por um cineasta indígena. É uma forma de dizer que cineastas índios, negros, trans têm de ter liberdade para fazer todo tipo de filme, como homens brancos também podem contar histórias de índios, mulheres e negros. Eu entendi assim, mas no momento em que ele disse pensei comigo – f…! Não tem volta. Carlos Eduardo tombou no lugar da fala, e de nada adiantou o fato de a garota índia – guarani – estar a seu lado. Quando o bicho pegou no debate, ela se jogou para trás na cadeira e ficou olhando para cima, como quem se abstrai. Era gente demais a ignorá-la, e isso depois de ela dar razão ao diretor numa das críticas que lhe foram feitas. Ele não identifica – não nomeia – os índios que participam de seu filme, identificando-os como ‘guaranis’. Carlos Eduardo deu seus motivos, a garota legitimou-o. O importante é a luta. Não adiantou. Assim como os guaranis do Jaguaré tiveram suas terras demarcadas e ‘desmarcadas’, daí a luta, a garota falou mas ninguém quis ouvir. Imagino que ela, jogada para trás, talvez estivesse pensando que é mais fácil fugir da polícia que de intelectuais raivosos, em defesa de seus princípios, em defesa dela. Eis o que virou o Brasil. O lugar da fala virou de enfrentamento. É preciso cuidado com o que se diz. E eu que até havia achado interessante. Um diretor vindo da publicidade na ‘bolha’ da Aurora? Gosto dessa Mostra por seu perfil radical, e fico indignado porque a Aurora não repercute tanto em São Paulo, com pouca gente nas sessões e nos debates – pelo menos em comparação com outros eventos. Uma cria da Aurora, a Semana (dos Realizadores, do Rio) nem tem conseguido parcerias em São Paulo. Isso, sim, me preocupa. Gostaria que esses espaços de respiro e resistência se multiplicassem e que pudéssemos conversar, sem ficarmos colocando o dedo na cara uns dos outros, como donos de uma verdade absoluta que talvez não exista. Uma das coisas que mais me chocou na vida foi aquela antropóloga, em Brasília, no debate sobre Onde o Tempo não Acaba, praticamente tentando calar a boca do índio na mesa. Um negro, uma mulher podem contar histórias de opressão que valem por uma etnia, um gênero. O índio, não. Fala sempre por ele mesmo, e olhe lá. A garota índia na mesa podia ser tímida, mas ao 17 anos ela já uma história. Como disse o crítico convidado, citando uma liderança indígena que acho que não conheço – nós brancos, temos a opção de nos engajar ou não, de militar ou não. Para índios é questão de sobrevivência. Mesmo assim, tem sempre gente tutelando índios no lugar da fala. O mundo realmente ficou muito complicado, e hoje, em especial, na ressaca de ontem, me bateu uma depressão.