As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tiradentes (7)/Terra dos índios: o asfalto da Av. Paulista?

Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2018 | 10h09

TIRADENTES – Por conta da chuva, que tem chegado, todo dia, rigorosamente no mesmo horário – fim de tarde, início da noite – as sessões da Praça têm sido transferidas para o Cine-Tenda. Ontem, assistimos a um ótimo programa de curtas. Diverti-me, como a plateia toda, com a incorreção de Leona Assassina Vingativa – Atrack em Paris, de André Antônio e Paulo Colucci, em que a heroína enfrenta e vence sua inimiga, a Aleijada Hipócrita. Num outro registro, rever O Quebra-Cabeças de Sara, de Allan Ribeiro, me confirmou a impressão de Gramado, de que se trata de um dos grandes filmes recentes, não apenas curtas, do cinema brasileiro. E veio o longa, o terceiro da Mostra Aurora. Ara Pyau A Primavera Guarani, de Carlos Eduardo Magalhães. Confesso que vou pular o segundo – Imo, de Bruna Schelb Corrêa. Não consegui, a partir da fabulação da diretora no palco, ao apresentar seu longa, e na tela formular uma ideia da ficção que, obviamente, quer abordar os grandes temas da mulher. No meu imaginário, formei, com jardins, maçã, uma vaga ideia sobre o Éden – com alguma coisa da Mãe (Terra) de Darren Aronofsky -, mas no Encontro com os Filmes a mesa unida (diretora, mediador e crítica convidada) conseguiu derrubar minha ideia sem ajudar a oferecer nenhuma contrapartida. E vamos à Primavera dos Guaranis. Ara Pyau documenta a luta dos guaranis para preservar o que sobrou de sua reserva no Jaraguá, em São Paulo. A extraterritorialidade – os remanescentes dos guaranis ocupam a avenida Paulista, centro do capitalismo brasileiro. Índios de celular, guitarra ainda são índios? A resposta está na aldeia. Uma utopia – a criança brinca com o macaco, que brinca com o filhote de cachorro, uma imagem que para os outros pode não significar muito, mas achei comovente. Meu Éden perdido de Imo? E na Casa de Reza os jovens prestam tributo a Nhanderu, sua divindade maior. Tudo isso com muito canto, porque os guaranis são muito musicais, me explicou o diretor. Estávamos, Dib Carneiro eu, jantando no único restaurante que sobrara aberto, na Praça – a sessão foi até tarde. Chegaram Carlos Eduardo Magalhães e Dellani Lima. Terminei contando ao diretor como o filme dele me resgatou uma das obras viscerais da minha vida. Em 1964, era calouro na Faculdade de Arquitetura da UFRGS, em Porto Alegre. Após o golpe cívico/militar, criou-se na faculdade um Mural Livre. Nele publiquei meu primeiro texto de cinema, sobre Um Clarim ao Longe, o western de Raoul Walsh. O lieutenant Matt Hazard/Troy Donahue tenta promover a paz entre os índios e a Cavalaria. No desfecho, o chefe índio, falando em sua língua, diz ao militar porque vai morrer, se for preciso, porque defender a terra é defender sua dignidade e a preservação de sua cultura. No desfecho de Ara Pyau, o guarani diz mais ou menos a mesma coisa, falando para a autoridade, que dessa vez não tem face – o secretário não sei o quê é enquadrado de costas. Há, em Ara Pyau, essa desconfiança das autoridades – por que será? O filme começa pelo fim, os índios cercados, no alto do Jaraguá. Sua líder comunica-se pelo celular com o militar que comanda a operação, e ele diz que o cerco é para proteger os índios, para evitar acidentes, se algum subir na torre de telecomunicações e cair. Ela responde que índio ‘não é burro’. Já escrevi aqui que pertenço a uma geração que sempre acreditou que o realismo não é só mostrar como são as coisas reais, mas como são realmente as coisas. O chamado realista, tema dessa 21.ª Edição da Mostra de Tiradentes – e 11.ª da Mostra Aurora -, não tem feito outra coisa senão reafirmar esse velho conceito. Navios de Terra mostra a rotina de um navio e o esgotamento (deleuziano) de seu protagonista, sem mostrar seu trabalho. É esse trabalho físico que o esgota, ou o tempo de espera, talvez alguma coisa mais existencial, o vazio? Navios de Terra não está na Aurora, mas Imo, sim. Três representações do feminino – uma é travesti – subvertem pela violência o que, basicamente, são gestos cotidianos (realistas?). Entramos no terreno do simbólico, e a dificuldade – minha, pelo menos – foi conseguir me situar nesse território, dando sentido às coisas. A mostra Aurora ainda nem chegou à metade. Sete filmes, só passaram três, dois muito bons (Madrigal para Um Poeta Vivo e Ara Pyau). Que os próximos quatro – dois hoje, dois amanhã – sejam enriquecedores, é o que espero da curadoria.