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Tiradentes (6)/De canabis a minério para a China, o Brasil ‘passa’ na Aurora

Luiz Carlos Merten

24 Janeiro 2018 | 17h44

TIRADENTES – Achei muito interessante o longa Apto 420, de Dellani Lima, que coloca em discussão a canabis, desmontando argumentos que se ouve com frequência para demonizar a maconha. Não sou usuário, nunca fui, o que me faz exceção na minha geração, mas gostei de ouvir relatos sobre a força relaxante da canabis, e de como nas plantações de cana, durante a escravidão, e hoje nos presídios, ela sempre foi usada como agente controlador. Cadeia em maconha é estopim para rebeliões, porque as pessoas ali dentro estão com a energia muito reprimida, à flor da pele, e qualquer coisa pode ser a fagulha para explodir a pólvora. Naturalmente que o filme do Dellani não é só isso. Como força controladora, a maconha pode ser contrarrevolucionária? Vivendo e aprendendo. A estética do filme é poderosa – aquele cara, negro, que faz uma performance invocando entidades míticas e religiosas. Ou seja, a coisa vai além da contribuição ao debate. ‘Agrega’, para incorporar uma expressão que tem sido zoada, valor (artístico) ao projeto. Outro dos atores, Shima, está em Navios de Terra, de Simone Cortezão, montado por Dellani com a diretora. Como não gosto muito de As Montanhas se Movem, vou radicalizar dizendo que Simone fez o verdadeiro Mountains Will Depart. Sorry, Jia Zhangke. O filme divide-se em duas partes – um navio que leva minério para a China e a fabulação sobre as montanhas que estão sendo deslocadas para o Oriente. A segunda parte passa-se na China e o personagem de Rômulo Braga sobe a montanha mítica. Viajei, e hoje, no debate, surpreendeu-me como a diretora é articulada e, mais que isso, como ela verbaliza/racionaliza as camadas de Navios de Terra. O Brasil segue sendo uma cultura extrativista, e mais de 50% do minério – o dado surgiu no debate – vai para a China, ajudando a fortalecer a economia chinesa, que compete com a dos EUA. Como meu negócio é viajar mentalmente, pensei que faz todo sentido a denúncia que volta e meia se faz do trabalho infantil e escravo no agronegócio brasileiro, porque, afinal de contas, o extrativismo típico da nossa cultura periférica está nos atrelando ao fortalecimento de uma potência capitalista que notoriamente está sempre sendo alvo de denúncias de violações de direitos humanos básicos. Nem Apto 420 nem Navios de Terra estão na Mostra Aurora, e ontem veio o segundo filme da competição, Imo, de Bruna Schelb Corrêa, que estou tentando decodificar até agora. Foi um dia estranho, a terça-feira, porque houve o anúncio do Oscar e tive de correr para fazer textos e análises para o online e o impresso. Mas vi os filmes (quase) todos, incluindo o curta O Carneiro de Ouro, de Dácia Ibiapina, sobre o Spielberg do Piauí, Dedé Rodrigues, que me encantou. Dedé é autor de uma série, Cangaceiros Fora de Tempo, 1, 2,3, 4 e o seu público pede o 5, que ele realiza com tecnologia simples e – surpresa! – muitos efeitos. Dedé conta que sempre amou o cinema e filma essas aventuras lúdicas para o próprio divertimento e quando Dácia lhe pergunta sobre as críticas que recebe, ele responde que vai seguir fazendo, porque não precisa da legitimação de ninguém. Saí do Cine-Tenda pensando em guerreiros como Dedé e caí no Cine-Encontro para debater a presença de diretoras negras no audiovisual brasileiro. Morro de medo de parecer reacionário, porque as duas realizadoras (de curtas) que estavam debatendo possuem uma bela capacidade de elaboração intelectual. Dedé é um primitivo, sem vergonha nenhuma. Elas, com todo o seu discurso – legítimo – da invisibilidade, vêm de outra extração social. Não basta fazer. Querem seu lugar de fala e o reconhecimento. Havia ali um protesto pelo encontro ser uma brecha na programação da tenda e não estar se realizando no que seria o espaço mais nobre dos debates oficiais, o Cine-Teatro Sesi (onde uma delas, por sinal, debateu seu curta). Faz todo sentido, sei. Os diretores são predominantemente brancos, homens, mesmo que tenhamos tido, ontem, dois filmes de mulheres, na Olhos Livres e na Aurora – e o da Simone, Navios, é sobre homens, vejam só! Sou pela diversidade, e pela representatividade, mas se queremos ser totais e transparentes – sou a favor -, onde estão as diretoras índias, e as trans? Havia uma em Gramado, no ano passado. O tema é complexo, sei, e precisamos nos adequar à cobrança, que vai seguir, cada vez maior, à medida que os grupos tomam consciências de seus direitos. É o que faço. E a todas essas surgiu nova palavra de ordem. Fora, Temer é coisa do passado. Ninguém mais perde tempo gritando. Agora é – eleição sem Lula é continuação do golpe.