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Tiradentes (5)/E a Aurora começou, em altíssimo nível

Luiz Carlos Merten

23 Janeiro 2018 | 00h47

TIRADENTES – E começou a Aurora. Confesso que tomei um choque. Madrigal para Um Poeta Vivo, de Adriana Barbosa e Bruno Mello Castanho, celebra um personagem raro. Tico, escritor e coveiro. Chorei muito, e não me envergonho de dizer. A gente acha que sabe tanto, que sabe tudo. Não sabe nada. Tico, que morreu em 2015, teve uma experiência artística e de vida das mais intensas. Diz coisas transcendentais. Bêbado, morador de rua – todas essas etiquetas lhe poderiam ser coladas, mas seriam imprecisas, como coveiro e escritor, aparentemente tão contraditórias, ou mesmo impossíveis, também são insuficientes. Esse homem reflete sobre a arte, e a vida. Os diretores também refletem sobre sua mídia. O chamado realista. Como se conta a história de um homem como esse? O filho cita John Huston, Os Desajustados/The Misfits. O pai tentou tomar a vida como se fosse um cavalo selvagem, pego pelos dentes. Mas o cavalo, a vida, foi mais forte. A validade do esforço e a inevitabilidade do fracasso. Todos os filmes de John Huston foram sobre isso. Entram as imagens do filme mítico. The Misfits, escrito pelo dramaturgo Arthur Miller para sua mulher, Marilyn Monroe – que nunca se conformou de haver perdido para Maria Schell o papel de Grushenka nos Irmãos Karamazov de Richard Brooks. Clark Gable tenta domar o cavalo. O cinema, vou morrer achando isso, é uma coisa maravilhosa. Um espelho da realidade, mas o que é, exatamente, a realidade? Um espelho de nós mesmos… Sou de um tempo em que se dizia que, mais importante que colocar na tela as coisas reais, era fundamental investigar como funcionavam realmente as coisas. Tem gente que até hoje confunde realismo com o verismo do neo-realismo italiano, que produziu alguns bons, até grandes filmes, é verdade. Mas é preciso acreditar em algo mais para concordar que um sonhador como Vincente Minnelli, o rei dos musicais, foi um grande autor realista. Deus Sabe Quanto Amei/Some Came Running é um dos maiores filmes já feitos. Fiquei chapado com Madrigal.Não me lembro de um ano recente em que a Aurora tenha começado em tão alto nível. Teremos coisas ainda melhores? Preciso preparar meu coração. E ainda houve, após a sessão, uma roda de conversa comandada por Rodrigo Fonseca. Cinema e Literatura na Multitela. O diretor José Eduardo Belmonte e os roteiristas Marçal Aquino e Fernando Bonassi falando sobre o seriado Carcereiros, livremente adaptado do livro de Drauzio Varela. Nos debates de Tiradentes, a Globo, mesmo quando não citada nominalmente, costuma ser exorcizada como Diabo na cruz. Foi muito curioso ver autores cultuados falar em liberdade de criar e ousar num esquema de indústria cultural. É possível fazer isso, mas é preciso ser muito bom. Se não acreditasse nisso não defenderia autores do cinemão como Christopher Nolan e Zack Snyder.