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Tiradentes (4)/Trem bão demais, como dizem os mineiros

Luiz Carlos Merten

22 Janeiro 2018 | 18h16

TIRADENTES – Estava no seminário que reuniu Affonso Uchôa e Adirley Queirós, Chamada Realista – Questão de Enfoque. Gostei muito, embora nem sempre estando de acordo com o que dizia a mesa, mas essa questão dos códigos narrativos e da fabulação me fascina. E hoje, pela primeira vez, eu acho que me pacifiquei. Porque, até no post anterior, ao reconhecer que ambos terminaram por polarizar e virar cabeças de fila de um novo cinema brasileiro autoral e independente, sempre achei, no meu inconsciente, que talvez tivesse de tomar partido e adotar um. Gosto mais, não nego, dos filmes do Affonso, A Vizinhança do Tigre e Arábia, que talvez seja o maior filme brasileiro contemporâneo, mas hoje, finalmente, pude gostar dos dois, uma fala problematizando, e completando, a outra. Ver o Affonso falar sobre como nasce o final de seus filmes, ou Adirley dissertar sobre como Ceilândia, para ele, engloba o Brasil, e o mundo, e seus personagens pequenos, ali dentro, conseguem virar maiores que a vida – heróis brasileiros -, me encheu de emoção. E os dois são crias de Tiradentes, da Aurora. A grande vitrine do cinema autoral brasileiro. Não perco essa Mostra por nada. Da mesa participava Patrícia Machado, que tem todo um trabalho de pesquisadora sobre a utilização de materiais de arquivo, e a Patrícia fez ressalvas, com as quais talvez não concorde, mas que são muito interessantes, sobre como João Moreira Salles ‘despotencializa’ as imagens do estudante João Luís em No Intenso Agora, ao se questionar sobre quem, de fato, chorou sua morte, no momento em que ela virou bandeira de luta no Brasil de 68? Eu talvez venha a ser execrado, mas não creio que No Intenso Agora seja sobre movimentos populares e o Maio. Para mim, essas coisas terminaram por impregnar a montagem do filme, mas ele é sobre a mãe, e seu suicídio, que nunca é referido de fato. Nesse sentido, a interrogação sobre quem chora os mortos me pareceu pungente, porque é por meio do assassinato do cara aqui, do suicídio do outro, em Praga, é através dessas (e outras) perdas, que João toca na essência da sua tragédia pessoal. A narração em off, na primeira pessoa, não deixa muita margem sobre isso e talvez eu tenha feito uma viagem muito maluca, mas quando André encontra o diário de Cristiano em Arábia, senti algo parecido. O relato desse último vira uma espécie de arquivo sonoro ficcional, reconstruindo um passado que é muito rico na sua simplicidade. A odisseia interior de Cristiano, seus dez anos de estrada para voltar (transformado?) ao princípio. O mineirês da fala de Cristiano/Aristides de Souza cria alguma coisa mágica, uma fabulação, no meu imaginário. Já contei aqui no blog como vi o Arábia quase em conexão com o Grande Sertão de Bia Lessa, que se baseia na letra de Guimarães Rosa, mas a desconstrói, e naturaliza, por meio de um carioquês do elenco que me deixou à beira de um ataque de nervos. E ainda gostaram – os críticos de teatro – daquilo. Jesus! Essa mesa de hoje levantou questões que vão me acompanhar, tenho certeza. A fala cínica de Temer em seu discurso de posse – as imagens são reais -, apropriando-se de Roberto Carlos. Eu te darei o céu, meu bem. A fala cínica de Temer na capa de ontem da Folha. O jornal estava aqui na mesa da sala de imprensa. Dei-me ao trabalho de ler. Queria morrer. Remember Spielberg. Para quem serve a imprensa na democracia…