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Tiradentes (2)/Sérgio Ricardo, em imagens e sons

Luiz Carlos Merten

22 Janeiro 2018 | 11h43

TIRADENTES – Ontem à noite a Mostra homenageou os 85 anos do ator, cantor, compositor e diretor Sérgio Ricardo, exibindo seu novo longo, após um hiato de 40 anos. Cavi Borges operou o milagre. Sérgio Ricardo já tentara captar para Bandeira de Retalhos, mas eram os anos Collor e o projeto não foi adiante. Nos anos 1970, a nascente associação dos moradores do Vidigal mobiliza-se para impedir a remoção da favela. As incorporadoras já anunciam os espigões com vista do mar na Av. Otto Niemeyer, mas, vocês sabem, o povo unido jamais será vencido. O filme foi um dos quatro exibidos em Tiradentes na minirretrospectiva dedicada ao grande homenageado deste ano, o ator Babu Santana. Uma Onda no Ar, Tim Maia – que eu tenho a mania de nomear pelo sobrinho, Ed Motta, como vocês devem ter percebido no post anterior, que não vou corrigir, para que fique para a posteridade (e para que o Orlando Margarido me atormente) -, Café com Canela e Bandeira de Retalhos. O filme integra-se ao tema dessa 21.ª edição – Chamado Realista -, de certa forma teatralizando a luta dos moradores, e com a participação do grupo de teatro da comunidade. No debate de ontem sobre Arábia, o coautor João Dumans disse como se sente incomodado com parte da produção brasileira recente, pelo que lhe parece a falsidade presente na representação da pobreza. Uma pobreza de TV, com objetos escolhidos para expressar uma condição social. Em alguns momentos de Bandeira de Retalhos tive essa impressão. O espaço diante do barraco de Tiana parece um palco, a boca de uma cena, e os interiores poderiam muito bem ser de estúdio. Dito assim, parece fake, ruim, mas o filme possui um sopro épico que me arrebatou. E o filme possui o que, para mim, sempre foi a qualidade maior do cinema de Sérgio Ricardo – o lirismo. O Menino das Calças Brancas e Esse Mundo É Meu fazem parte do meu imaginário, vocês sabem, e na sequência do filme, o próprio Sérgio, com o casal de filhos, apresentou seus show, com músicas das trilhas que compôs, enquanto no telão passavam as imagens do filme. Cavi Borges precedeu o show apresentando Sérgio, ele que, nos últimos anos, também produziu Luiz Rosemberg Filho e dizendo como é importante esse resgate que Tiradentes faz de cineastas históricos, guerreiros na sua independência. Acho bonito que essa garotada que curete o novo, e enche os debates, reverencie os velhos. E, ao mesmo tempo, me bateu uma nostalgia. Nenhuma palavra sobre Léa Bulcão. No telão, a par das imagens na fábrica de Esse Mundo É Meu – operários! -, Léa avança de mãos dadas com Sérgio na cena da oferenda, no mar, e a intensidade do seu olhar me lembra Jeanne Moreau. Era jovem quando descobri essas mulheres maravilhosas, por volta de 1960. Jeanne, Léa, Emmanuelle (Riva) e Ruby (Dee). Cá estou viajando, como sempre. E a Aurora começa esta noite. Mal posso esperar.