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Tiradentes (15)/Um novo começo

Luiz Carlos Merten

28 Janeiro 2018 | 16h29

Estou de volta. São Paulo. Vai saber por quê. Chego e parto a toda hora de Congonhas, mas hoje o céu estava nublado, o avião teve de atravessar as nuvens – com aquela turbulência – e, ah, sim, o carinha sentado na primeira fila, perto de mim, era o Júnior (da Sandy). Lembrei-me do início de Voar É com os Pássaros/Brewster McCloud, de Robert Altman, e do fim de Doutor Fantástico, de Stanley Kubrick. O mar de nuvens e o proliferar dos cogumelos atômicos. Tentei me lembrar da música do Altman, mas a do Kubrick ainda ecoa em mim. Quantos? 50 e tantos anos depois. ‘We will meet again’. Onde nos reencontraremos? Em 2001, a kubrickiana odisseia no espaço. Sem querer polemizar, lamento por quem se acostumou a ver filmes não importa como, preocupado, talvez, com o tema, a história e nem tanto com a fruição, que sempre me parece mais importante. Com certeza não é a mesma coisa ver esses filmes na telona e na telinha. De volta a Tiradentes, tento pensar nos filmes da Aurora e do que me ficou dessa 11.ª edição. Da 21.ª – a Tiradentes como um todo -, restaram Arábia, Antes do Fim, A Garota do Calendário, Navios de Terra. Já disse que gostei muito de Madrigal para Um Poeta Vivo e Rebento, mas isso não significa que outros filmes da Aurora não mexeram comigo. Dias Vazios, Lembro Mais dos Corvos… O próprio vencedor deste ano, Baixo Centro, mesmo não me parecendo tão bom, tem coisas. Nenhum filme que fale sobre a degradação do Centro das grandes cidades – e a reocupação daqueles espaços – me é indiferente. O filme da Helena (Ignez) tem isso e o curioso é que ela – se ainda mora no mesmo apartamento em que fui entrevistá-la – está cercada pelos espaços que filma em A Garota do Calendário. O Chamado Realista. Talvez de forma mais intensa em alguns filmes que outros, a Aurora de 2018, ao jogar com espaços abertos e/ou fechados, me jogou em muitas aventuras interiores. A errância de uma mulher no sertão, a de jovens nas ruas desertas de uma pequena cidade, a de homens e mulheres mais maduros que se deslocam da periferia para o Centro da metrópole, a da trans que não precisa sair de dentro de casa para nos revelar seu mundo (e o mundo), etc, acho que a 11.ª Aurora me trouxe, não apenas formas de produção e relatos, mas personagens fortes que me revelaram os Brasis. Nada foi mais impactante que o cansaço do protagonista de Arábia, de Affonso Uchôa e João Dumans, que revejo sempre com, fascínio – a prosódia mineira! -, nem o mistério de Jean-Claude Bernardet imprimindo sua performance sobre a de Kazuo Ono em Antes do Fim, de Cristiano Burlan. Gêneros, etnias. Posso até ser considerado ‘tolo’, mas nesse mundo polarizado, radicalizado em que vivemos, ainda lembro, como norte, de uma frase de Rainer Maria Rilke que me marcou há muitos anos, em que ele fala que, para lá das divisões entre sexos, ele,um poeta, homem branco, gostaria que homens e mulheres se unissem para carregar o fardo da difícil sexualidade que lhes foi imposta. Pois é, eu também li Judith Butler, e compreendo que o momento é de lutar, e apoiar os que se rebelam contra essa imposição. Foi uma bela Aurora, como aqui em São Paulo vocês poderão conferir em março, e o Antes do Fim já em fevereiro, distribuído pelo próprio diretor.