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Tiradentes (13)/Tomei porrada!

Luiz Carlos Merten

27 Janeiro 2018 | 19h48

TIRADENTES – Acabo de ser massacrado no debate sobre o cinema brasileiro contemporâneo, à luz do tema da 21.ª Mostra, Chamado Realista, porque não ouvi uma pergunta, na verdade uma crítica que me foi feita. Não sei se a autora da pergunta falava com o microfone muito perto da boca, mas reverberou para mim e não sabia exatamente do que estava sendo cobrado. Como era uma fala sobre Rebento, filme sobre mulher feito por um homem, do qual gostei muito, imagino que tenha falado alguma coisa sobre a obra fugir à militância do filme feito por e para mulheres. O que disse pode ser polêmico, reconheço, mas existe esse tipo de militância, ainda mais numa mostra radical como Tiradentes. Confesso que me chocou, logo no início justamente de Rebento, ver algumas jovens negras que tenho ouvido se manifestar saírem da sala poucos minutos após o começo da sessão, sem dar chance ao filme. Rebento não reverberou para elas porque não tinha personagens negras? É um direito, é legítimo, mas em se tratando de arte confesso que me incomoda. O filme sobre homens, feito por homens, me provocou a garota – uma jovem senhora, pois está grávida – seria universal? O pior é que, numa mídia tradicionalmente dominada por homens, têm sido, sim, ao longo de, quantos?, 122 anos – desde 1895. A questão, no fundo, nem era essa, mas uma certa estratificação, mulheres de classe média falando delas, para elas – mulheres de classe média. Em Gramado havia a Carol Leone, de Pela Janela, falando de uma operária, como Anna Muylaert falou de uma doméstica em Que Horas Ela Volta? Isso me interessa mais,mas é uma opção pessoal. Homens de um extrato social, como Leon Hirszman, falaram sobre operários em Eles não Usam Black-Tie! São os filmes que ficam. É esse crossover que não estou sentindo. Entendo que o momento é de transformação, mas, quando disse que não ouvia, e era verdade, outra voz feminina gritou do fundo da sala ‘Palhaçada!’, como se eu fosse mais um canalha qualquer. Criou-se um clima. No final, fui perguntar à garota, ela saiu com quatro pedras na mão, disse que se eu não ouvira ela também não estava me ouvindo etc. Por que conto isso? Porque o debate, atualmente, no Brasil, ficou muito acirrado. Questões de gênero, sociais, de etnia e, às vezes, querendo ser progressista, você passa por reacionário. Até meu mestre, Luchino Visconti, passou por isso. Em Violência e Paixão, Burt Lancaster, como o Professor, alter-ego de Visconti, abre os braços para o alto e clama – ‘Não sou um reacionário!’ Outro garoto me criticou por defender o filme no cinema. Sigo defendendo os filmes na sua primeira tela e detesto quando me oferecem links de filmes. Sei que existem várias telas e já existe uma geração que não faz mais diferença onde está vendo os filmes, mas, dentro do sistema industrial, continua fazendo toda diferença e não conheço muitos filmes – até feitos com celular -, que não tenham sido pensados, originalmente, para o processo imersivo da sala escura. Os filmes da Aurora, por mais inovadores que sejam, foram feitos para passar no Cine-Tenda. E, quando escrevo no jornal, é sobre filmes que passam no cinema. Não estou descartando as outras telas, mas em Cannes, 2001, quando se debateram as novas tecnologias, a grande questão que ficou no ar era – se mudarem a tela, o suporte, etc, ainda será cinema? Até Pedro Almodóvar, por esse padrão, revelou-se um reacionário este ano, descartando a Netflix, na polêmica sobre Okja em Cannes. Não por acaso, o termo cinema vem sendo substituído cada vez mais por audiovisual, o que engloba mais telas. O que me reconcilia comigo é que, aos 72 anos, não tenho nenhuma das certezas que tinha aos 20, aos 30. Estou (re)aprendendo, e feliz.