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Tiradentes (11)/O primeiro e o último

Luiz Carlos Merten

27 Janeiro 2018 | 10h09

TIRADENTES – Terminou a Aurora. Com a apresentação dos dois últimos filmes concorrentes, Lembro Mais dos Corvos, documentário de Gustavo Vinagre, e a ficção de André Morais, Rebento, encerrou-se a 11.ª edição da mostra que se transformou na grande vitrine do cinema autoral e independente do País. Não vou dizer que a Mostra mudou, mas, de alguma forma, a deste ano teve uma abertura maior para o cinema narrativo. Como Marcelo Miranda, na condução de um dos debates, fez questão de enfatizar, a Aurora não fecha questão numa forma ou formato de cinema. A única regra que não pode ser transgredida é a dos novos diretores, até o terceiro filme. O filme pode transgredir tudo – até o tema do evento, que em 2018 está sendo o Chamado Realista. Imo, um dos filmes selecionados – de Bruna Schelb Corrêa -, a duras penas poderia ser considerado realista. Mas, claro, mais do que com a exposição das coisas reais devemos nos ocupar de como realmente funcionam as coisas, e aí o leque se amplia. Talvez não seja muito justo, nem correto, juntar os filmes, porque eles são diferentes, mas se a curadoria selecionou programas duplos para as duas últimas noites é porque os filmes de alguma forma dialogam entre si. Lembro Mais dos Corvos é sobre uma mulher trans, Júlia. Ela fala para a câmera, que quase não intervém. A própria Júlia é a transgressão, seu corpo. Não pude deixar de me lembrar de Eloína, a travesti de República dos Assassinos, de Miguel Faria, adaptado de Aguinaldo Silva. A fala de Eloína, quando diz que é uma aberração, e convida o olhar do espectador a visitar seu corpo de mulher esculpido numa base de homem. O tempo passou, a questão trans está longe de ser resolvida, no sentido de ser assimilada pela sociedade, mas Júlia não é nenhuma aberração. Narra sua experiência humana. Assume-se como cinéfila. Talvez seja diferente, mas e daí? O xis, não cis da questão, é que a simples existência de Júlia (ainda) é um ato de rebeldia, de transgressão. No finalzinho, temos, talvez, a única ideia de mise-en-scène do filme. Júlia assume o comando, diz que agora vai dirigir – o Sol. E o Sol não vem. Demora. Talvez seja o tema de Lembro Mais dos Corvos. A mãe diz que Júlia fez de sua vida uma sucessão de cenas de cinema. Aos 30, ela não sabia direito o que fazer. Aos 40, está atriz. Dirigindo uma cena de filme, ela não estará dirigindo sua vida? As coisas podem tardar, mas se você persistir sempre há chance de realizar seu sonho. E veio Rebento. Vou logo dizendo que o de abertura – Madrigal para Um Poeta Vivo – e o de encerramento – Rebento – foram meus melhores filmes da Aurora neste ano. A Mostra reafirmou, e isso me parece decisivo, a importância de uma produção regional à margem do eixo da produção brasileira, em geral já periférica (em relação aos grandes centros, a Hollywood). O cinema de Goiás, o da Paraíba, com bons filmes, grandes até, foram destaques neste ano. Rebento é sobre maternidade e muito mais. Uma mulher, que muda de nome diversas vezes durante o filme, mata seu bebê na cena inicial e parte numa errância pelo sertão. Medeia, claro. Um filme sobre maternidade, feito por um homem e dedicado a outro homem, o pai do diretor. Uma atriz extraordinária, Ingrid Trigueira, espero estar acertando o nome. Estou curioso pelo bate-papo sobre Rebento. Depois, eu conto. E, à noite, teremos o encerramento, com a premiação.