As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tiradentes (10)/Religiosidade profana

Luiz Carlos Merten

26 Janeiro 2018 | 13h44

TIRADENTES – Pode parecer irrelevante, mas a freira de Dias Vazios fuma. Não pude deixar de viajar nas lembranças do cinema italiano de carregação dos anos 1970, autores que eram execrados e hoje viraram cults. Nada como o tempo para relativizar valores. A freira que fuma era sempre a p… no convento e aparece em vários filmes de Jess Franco & Cia. A freira, os garotos e garotas, todo mundo fuma em Dias Vazias. Os personagens fumam mais ainda em Baixo Centro. Cheguei a brincar com o Dib, que estava do meu lado – deve ter sido o item mais caro da produção. Cigarros. E é curioso como sendo filmes tão diversos, Dias Vazios e Baixo Centro possuem elementos que me pareceram comuns, como já assinalei, e daí a liberdade do título do post anterior, Dias Vazios 1 e 2 – a angústia, o sentimento de vazio, a morte que ronda. Gosto muito dessa ocupação do Baixo Centro, até porque frequento o centrão de São Paulo. Se o filme está no Spcine – Sala Olido, prefiro ver ali. Já contei como, tendo participado do debate sobre Uma Mulher Fantástica na Reserva Cultural, encontrei naquela lanchonete na esquina da Ipiranga com São João a transexual (desculpe, mas esqueci o nome) que havia debatido comigo. Acho legal quando isso ocorre e quero dizer que curto o Baixo Centro – de São Paulo, do Rio, do Recife – que é onde pulsa uma energia local muito forte, muito viva. O shopping tende a ser tudo a mesma coisa, em toda parte. É onde vão os coxinhas – bá, acho que é a primeira vez que uso a palavra no blog. Não só pela presença da freira, o tema da religiosidade é forte no filme de Robney Bruno Almeida. Jean, o suicida, sonha com Deus e conversa com o ‘cara’. A religiosidade reaparece no ambiente mais profano de Baixo Centro. Os personagens pegam o buzão na periferia para ocupar o Centro. Cena musical. Rap, forte apelo sexual. Mas, no desfecho, entra aquele canto dos ebuns, e eu, que fiquei no bate-papo sobre o filme para ver a apresentação da Luciana Veras, do Recife, ouvi um pedacinho da fala de um dos diretores, quando Ewerton Belico falou no ebun como representação da morte, ou dos mortos. Fez mais sentido para mim o deslocamento inicial da câmera, seguindo o personagem no que parece uma viela de cemitério, ou com o cemitério do fundo. A guerra (de gangues) acabou, diz um dos personagens. Somos sobreviventes. Retrato do Brasil. A Aurora vai terminando. Restam poucos debates, inclusive o meu, Chamado Realista – Cinema Brasileiro Contemporâneo, amanhã à tarde. Confesso que vou sentir falta desses encontros.