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The hate u give, e palmas para George Tillman Jr.

Luiz Carlos Merten

08 Dezembro 2018 | 08h56

Foi um ano de muita dor para mim – já passou, a dor -, mas confesso que estou entalado e não consigo liberar a emoção reprimida. Em compensação, chorei ontem por todo o ano assistindo a O Ódio Que Você Semeia. É curioso como os filmes dialogam entre si (e com a gente). No belo As Viúvas, de Steve McQueen, do qual gostei bastante, o filho de Viola Davis, na direção de um carrão, é abordado por um policial. Ele faz um movimento brusco e o tira, pensando que vai pegar um revólver, o criva de balas. Tenho brigado muito com esse tipo de gente que cita estatística – a criminalidade entre jovens, negros, pobres -, para minimizar esse tipo de violência. Seriam ‘casualties’ da guerra social, pelo menos reconhecem que há uma guerra social, provocada pela desigualdade. A cena de As Viúvas leva à abertura de O Ódio Que Você Semeia. O pai reúne os três filhos – de 9, 8 anos e o último ainda bebê – para ensinar como devem reagir a uma abordagem policial. Ou melhor, não reagir. A família é negra, de classe média, o pai tem um pequeno negócio, a mãe é enfermeira, os filhos estudam em colégio caro, de brancos. Não discutam com o policial, não invoquem seus direitos – que os põem nervosos, os tiras – e principalmente mantenham as mãos paradas, bem visíveis. A cena, até onde sei, é meramente citada no best seller de Angie Thomas, mas é expandida pelo diretor George Tillman Jr. e sua roteirista, Aubrey Wells. O pai, Mav, é magnificamente interpretado por Russell Hornsby, a filha, que é a narradora, será, anos depois, Amandla Stenfeld, da série Jogos Vorazes, igualmente maravilhosa. Seu nome – Starr, com dois Rs. Starr vai encontrar um amigo numa festa, há uma confusão, ele a leva para casa num carrão. Khalil entrou para o tráfico, mas nesse momento não é o que importa. É apenas um jovem reencontrando a antiga amiga, a primeira namorada, o primeiro beijo. O clima afetivo é interrompido pela chegada do policial. Khalil comete a imprudência, o movimento brusco – para pegar a escova de cabelo! Toma bala, na frente de Starr. Ela vive o dilema de testemunhar contra o tira branco no grande júri. O caso agita a comunidade, gera protestos, movimentos de rua. O filme é sobre como Starr é pressionada a se tornar uma ativista. Política (e vida familiar), como em Rasga Coração, mas melhor, sinto admitir, que no filme de Jorge Furtado (também uma adaptação, da peça de Oduvaldo Vianna Filho). O pai, Mav, faz os filhos recitarem a cartilha dos Panteras Negras. Khlalil invoca 2Pac, ‘The hate u give’. A mãe, a grande Regina Hall, está no Globo de Ouro e deve ir para o Oscar por Se a Rua Beale Falasse, de Barry Jenkins. Confesso que tive de pesquisar para ver quem era esse George Tillman Jr. É negro, dirigiu Homens de Honra, com Robert De Niro e Cuba Gooding Jr., e Uma Longa Jornada, com o filho de Clint, Scott Eastwood, baseado em Nicholas Sparks. Na TV é ligado às séries Soul Food e Barbershop, que eu não fazia ideia do que tratavam. Fui pesquisar e são histórias ligadas à cultura afroamericana. A primeira é autobiográfica, contando histórias que remontam à infância do diretor em Wisconsin. A segunda é sobre uma barbearia de negros em Chicago, Illinois. Só sei que já deveria estar prestando atenção nesse George Tillman Jr. há mais tempo. O Ódio Que Você Semeia, de qualquer maneira, é um belíssimo diferencial na carreira dele. Vejam. Quanto a mim, estou indo daqui a pouco para a Comic.con, para entrevistar o M. Night. Vi ontem 20 minutos do novo filme dele, Glass, e fiquei nos cascos. Shyamalan retoma o seu Corpo Fechado, e agora numa espécie de diálogo violento com Fragmentado. Gostei.