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Teuda, e Nós

Luiz Carlos Merten

19 de agosto de 2016 | 09h18

Fui ver ontem o Nós, do Grupo Galpão, no Sesc Consolação. A primeira pessoa que encontrei foi Danilo Santos de Miranda, que sempre brinca comigo – ‘O que um homem de cinema faz no teatro?’ Cada vez mais, e graças a Dib Carneiro e a Gabriel Vilela, o teatro faz parte da minha vida. Fomos ontem Dib, Cláudio Fontana e eu – Gabriel estava no Rio, na estreia de Rainhas do Orinoco. Perguntei ao Sr. Sesc para quando a inauguração da unidade do Centro, na esquina da 24 de Maio com D. José Gaspar. Passo muito por ali e sempre espicho o olho para tentar ver alguma coisa através das portas e dos portões abertos, pelos quais circulam operários e caminhões. Danilo me disse que a inauguração sai até o fim do ano. Aleluia! O Sesc Centro vai ficar a uma quadra do Teatro Municipal e a outra da Galeria Olido, com a sala do Circuito Spcine. Não sei quanto, ou se, o novo Sesc vai alavancar aquela área, mas espero que muito. Com todo respeito, e embora existam ali lojas como a C&A, é uma zona de comércio popular, a Saara de São Paulo, onde circulam africanos e bolivianos. Adoro. Sinto-me em casa. E volto ao Nós. Gostei muito (muito!) da primeira parte do espetáculo. Não é uma montagem tradicional nem uma dramaturgia tradicional. Teuda Bara instala-se no palco – daqui não saio, daqui ninguém me tira. Mas o coletivo a tira. À força, para depois acolhê-la, também à força. Estou tão acostumado a fazer os ‘meus’ filmes que também reconstruo mentalmente as montagens que vejo. Metaforizei o impeachment. O público, também. No final, quando a plateia é convidada a subir ao palco para ‘baladar’ com o elenco, surgiram os inevitáveis gritos que hoje acompanham toda manifestação artística que se preze – ‘Fora, Temer’. Dib e Cláudio, que conhecem mais a história do grupo, viram outra coisa. Eu prefiro ficar com a minha leitura. Teuda vira Dilma, arrancada à força do Planalto. Teuda Bara! A mais barroca das atrizes brasileiras – no físico, no temperamento – teria encantado Ingmar Bergman e, principalmente, Federico Fellini. Teuda me lembra muito Kari Silwan, que protagoniza a Pìetà bergmaniana, desnuidando o seio e acolhendo em seu colo a moribunda Harriet Andersson em Gritos e Sussurros. Despudorada, num ato de entrega, Teuda fica nua em cena. Acolhe Eduardo Moreira, que também fica nu, em seu colo. Ele escreve palavras no corpo dela, que vira a peça, o espetáculo, o conceito. Citei Bergman, mas tem Fellini. Teuda é a Saraghina que Federico não filmou. Quando a vejo, sempre fantasio que Fellini lhe teria construído um castelo (de fantasia) para mantê-la presa em seu mítico estúdio 5 de Cinecittà. Teuda canta. À capella e afinada. O grupo inteiro canta, toca. As cenas ‘musicais’ me arrebataram, e arrebentaram. Marcio Abreu é o diretor. Ele já fez um espetáculo em que ficava todo mundo nu. Achei… Bobagem? Não me impressionou. A nudez de Teuda e Eduardo, sim, é visceral. Aquilo tem História. Nós é sobre o Brasil, o Galpão, e nós. A idade, o tempo, a finitude, a permanência. Teuda é Dilma? Delírio meu? Pode ser – que seja delírio e que seja Dilma. O programa abre-se com uma citação de Jacques Rancière, O Ódio à Democracia. (Essa senhora, diria rapariga, reaparece, metamorfoseada em Marianne, no Louvre, sob a Ocupação, de Alexander Sokurov em Francofonia, mas é outra história.) Cláudio Fontana ensaia um Beckett dirigido e interpretado por Elias Andreato, Esperando Godot. Definiu Nós como um espetáculo beckettiano-tupiniquim, e antropofágico. Gostei demais do princípio da repetição. Toda a dramaturgia é um certo número de frases que vão agregando palavras e significados. E o que importa é a mise-en-scène. Como o espaço se constrói e desconstrói pelo movimento, pela cantoria, pelo corpo. E Teuda! Mítica como Saraghina. Ou como Divine, homenageada nesta sexta, no Belas Artes, com Pink Flamingos. O post é sobre Teuda, mas vou ter de voltar a Divine.

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