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Terrenal, e a nova Odisseia que nem chegou a ser (sem dor)

Luiz Carlos Merten

16 de dezembro de 2018 | 23h29

Em definitivo, a dor nunca é conselheira. Lembro-me quando fui anteriormente ao Sesc Santo Amaro, num sábado à noite, no pós-operatório, usando bengala. Voltar para casa foi uma jornada épica, a minha Odisseia. Voltei hoje ao Sesc Santo Amaro para ver Terrenal – Pequeno Mistério Ácrata. Acompanho Celso Frateschi, a ele e à mulher, Sylvia Moreira, a quem admiro muito, mas confesso que tinha me passado despercebido esse Terrenal, que estreou em novembro, texto do argentino Mauricio Kartun, direção de Marco Antônio Rodrigues. Soube da peça meio por acaso. Sentei-me ontem no gargarejo, na fila A, para ver Estado de Sítio em outro Sesc, o Vila Mariana. Puxei conversa com a moça do meu lado, descobri que era jornalista, que trocou a profissão pelo direito tributarista, e ela me falou do Terrenal, dizendo que era o último dia nesse domingo (mas volta dia 11 de janeiro em outra unidade do Sesc). Fui hoje ao Centro antes de ir para o jornal, passei na unidade da 24 de Maio, comprei ingresso e lá fui eu, depois de fazer os Filmes na TV e minha capa de segunda, amanhã, sobre Drica Moraes. Encontrei Ubiratan Brasil e Beth Néspoli. O texto retoma o mito bíblico de Caim e Abel e o usa como alavanca para encarar a contemporaneidade – temas sociais, políticos. O conceito do espetáculo é o circo, um pequeno circo, a pulga de Buster Keaton em Luzes da Ribalta, última obra-prima do grande Charles Chaplin. Frateschi contracena com Danilo Grangela e o bressaniano Fernando Eiras, que canta bem demais. Demian Pinto faz a trilha ao vivo. No final, houve debate com o diretor e a tradutora Cecília Boal, viúva de Augusto, criador do teatro do oprimido. Não sei se o debate continuou muito depois que saí, mas queria ver Colette. Saí, peguei o metrô, o trem da CPTM e a essa altura, sem estresse nenhum – a vida sem dor é outra coisa -, desci perto das 10 (22) no Shopping Eldorado. Tendo desistido, temporariamente, do filme – não dava mais tempo -, fui jantar no Almanara. O restaurante estava praticamente vazio, mas chegou um casal jovem que se sentou ao meu lado. Não creio que tenham trocado uma palavra – ah, sim. Escolheram o que iam levar (delivery) e ele comeu uma esfiha. Ficaram, o tempo todo, cada um no seu celular. Quase perguntei se tinham votado no (Jair) Bolsonaro. Esse é o tipo de gente que se acha moderna e embarca feito pato nas fake news que ajudaram a eleger o político do baixo clero, fisiológico até o último, como se fosse o novo. Quando jantei com a Lúcia na quinta, ela me falou sobre a pastora Damares Alves, ministra dos Direitos Humanos, que subiu com Jesus na goiabeira – não, Ele subiu para impedir que ela se matasse. Jesus, Jesus, por que? Para que salvar essa celerada, que está vindo integrar o que CC, Carta Capital, chama de ala lisérgica do próximo governo, incluindo os outros dois ministros, da Educação e das Relações Exteriores, ambos indicados pelo Napoleão do hospício – adoro a definição da revista -, Olavo de Carvalho? Leio, agora nos jornais, que a oposição está se mobilizando para criar uma CPI que investigue as contas da família Bolsonaro e o Centrão, feliz da vida, começa a negociar cargos para impedir que isso aconteça. Como é mesmo que dizia Tancredi? As coisas têm de mudar, mas só na aparência. É o que estamos vendo.