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Tergiversando, ou o labiríntico caminho para Woody

Luiz Carlos Merten

23 Julho 2016 | 11h05

Vejam como são as coisas. Abri o blog para acrescentar novo post -sobre o Woody Allen – e a tecnologia pregou-me uma peça. Do nada, antecedendo meus posts recentes, veio um rascunho muito antigo, do tempo em que Dib Carneiro ainda era meu editor. Dib me pautou para ver um filme de terror -, Abismo do Medo, de Neil Marshall -, que a concorrência havia colocado nas nuvens. Há quantos anos foi isso? Só que ele não é editor são cinco, seis. Li, fazia algumas observações que ainda me pareceram válidas sobre filmes e autores que admiro. Alfred Hitchcock, sempre, o Alejandro Amenábar de Os Outros, que permanece, no meu imaginário, como um dos filmes mais assustadores que já vi. (Hoje, talvez acrescentasse Invocação do Mal.) Fiz um novo abre e, antes de validar, resolvi ver a data do rascunho. Assim como surgiu entre meus posts publicados, ele sumiu e eu teria, quem sabe, de pesquisar em alguma memória de rascunhos do blog aqui no meu laptop. Não tenho paciência. Prefiro viajar. A máquina, lembrem-se de Hal 9000, está querendo falar comigo para ter selecionado aquele rascunho? É meu inconsciente tentando me mandar um recado? Deve haver uma resposta bem mais simples que isso, mas, em todo o caso, serviu para animar minha manhã. A esta hora deveria estar na estrada, indo para Jaú, com minha ex e nossa filha e a amiga dela. Doris é arquiteta, adora o Affonso Eduardo Reidy e ontem, no jantar, falamos bastante sobre os filmes que Ana Maria Magalhães dedicou ao grande arquiteto. Mas a ida para Jaú liga-se ao fato de que Doris queria conhecer a rodoviária da cidade, obra de outro grande, Villanova Artigas. Quase fui, mas tem aqui o Festival Latino, o Medida por Medida, que quero ver à tarde. Não deu. E volto ao tema inicial do post, o Woody Allen. Havia visto o Café Society na abertura de Cannes e confesso que gostei muito do filme. Gostei ainda mais na revisão, como gostei mais ainda do Almodóvar, Julieta, a tragédia mediterrânea de Pedrito, de volta à forma, como Woody. Humor judaico, a tradicional jewish mother, o absurdo da vida, os bastidores de Hollywood nos anos 1930 e Jesse Eisenberg e Kristen Stewart como o mais belo e triste casal recente do cinema. O final melancólico, a fusão que Allen e seu grande diretor de fotografia, Vittorio Storaro, fazem do rosto dos dois, me trouxe de volta uma cena indelével no meu imaginário – o reencontro de Warren Beatty e Natalie Wood no desfecho de Clamor do Sexo, de Elia Kazan. Woodsworth – nada trará de volta o esplendor do sol na relva, a nostalgia do que fomos. Look at you, Jesse diz para Kristen, renegou tudo em que acreditava e ela lhe pede que não seja tão duro, porque ele também não é mais o mesmo. E assim segue a vida. Vamos aproveitar cada dia como se fosse o último, e um dia será mesmo o último, como diz a mãe. Há tempos não via um personagem tão maduro e maravilhoso como o cunhado consciente, e o ator que faz o papel passa essa ideia de integridade. O mundo é uma m…, life stinks como diz o Mel Brooks, a organização social é um jogo de interesses e poder sem fim, ao qual se atrela a ética pela ótica da classe dominante, e é o que vemos no Brasil, by the way. Lembrem-se do Mercado de Notícias. Estão decidindo por nós quem é íntegro, e metade desses caras não vale, segundo um velho ditado gaúcho, a merda que caga. A vida é um conto cheio de som e fúria, contado por um bobo, dizia o ‘Bill’ Shakespeare. Woody Allen atualiza o bardo – a vida é uma história sem sentido narrada por um roteirista sádico de Hollywood. Amei o Café Society, e vou ter de acomodar o filme entre meus dez mais do ano. Só para terminar – Parker Posey. Depois de O Homem Irracional e Café Society, espero que Woody Allen nunca mais pare de filmar com ela. Desde Mia Farrow não via uma integração tão perfeita entre atriz e diretor, ‘esse’ diretor. Genial.