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Tergiversando – de novo!

Luiz Carlos Merten

13 Julho 2016 | 10h14

Quero voltar a Blanche, para uma rápida tergiversação. É o que mais gosto de fazer. Escrevendo como quem fala com seus botões. Antunes Filho deve ter-se valido de uma célebre declaração de Tennessee Williams – “Blanche Dubois sou eu!” – para construir sua personagem em travesti. Do alto de seu panteão, com todos aqueles admiradores lá embaixo – ah, o exemplo de Muhammad Ali -, não teve nenhuma dificuldade para ser reconhecido, mais uma vez, como gênio. Que ideia! Que ideia de jirico. Não quero dizer que não seja válido. Gabriel Villela fez sua Lady Macbeth em travesti, e com Cláudio Fontana falando língua de gente. O travesti, ou a travesti, é um recurso cênico antigo. Já foi até praxe. Mas fico pensando – sabe aquele cara, o Flaubert? Também dizia que Madame Bovary ‘sou eu’ (ele!), mas duvido que alguém sensato fosse fazer uma adaptação do livro para outra mídia, qualquer que fosse (cinema, teatro ou TV), colocando um homem no papel de ‘Emma’. Agora Blanche pode, claro, porque Tennessee, afinal, era viado. Me pergunto se não haverá aí embutido certo preconceito, embora isso, claro, não me tire o sono. O que tenho certeza, por tudo que conheço dele, é que Tennessee Williams viveu sua homossexualidade como tragédia. Tendo conhecido o preconceito, e sendo ele próprio preconceituoso, o que não chega a ser uma contradição, duvido que fosse aceitar a condição como ‘natural’. Todos esses pares gays reproduzindo a história dos heteros – como Thelma e Louise agindo como homens, para se afirmar em seu universo -, não creio que ele se sentisse à vontade com isso. Imagino que fosse dizer que não era para ele, ou era tarde demais. A homossexualidade, para Tennessee, era vista como predatória, canibalesca mesmo – vide o caso radical de Sebastian Venable, de De Repente, no Último Verão, magistralmente filmada (a peça) por Joseph L. Mankiewicz, com aquele elenco (Elizabeth Taylor, Katharine Hepburn, Montgomery Clift). Se Tennessee fosse mesmo Blanche, pode crer que não iria querer nenhum Mitch, mas um bruto como Kowalski, mesmo que fosse para tomar porrada. É o lado ‘Chant d’Amour’, tipo basfond, de Jean Gênet. Aonde quero chegar com tudo isso é a Florence Foster Jenkins. Existem dois filmes em cartaz sobre ela. O francês Marguerite põe a ênfase no mordomo. O anglo-americano Florence – Que Mulher é Essa?, no marido. A versão de Stephen Frears tem aquele pianista bichinha. O ator é ótimo e, trabalhando sobre um clichê, briga justamente para enriquecê-lo. Aquilo é preconceituoso ou realista? Fala sério – qual é a diva que não tem seu entourage de gayzinhos? Uma drag de respeito não vai na esquina sem séquito. O que quero dizer é que o preconceito é uma coisa arraigada, e muito sutil. Existe racismo no Brasil? Teoricamente, não, mas na prática… Põe a periferia no JK Iguatemi para ver o que ocorre. E é por isso que, nessas ilhas de tolerância que são certos espaços, sai dali e o pobre gay toma porrada, como aquele garoto do teatro que foi parar na UTI, no outro dia. Quando, na vida, vamos aceitar o outro, sem tentar mudá-lo? Acreditem, mas Marguerite, Florence, Tarzan, Entre Idas e Vindas, até Julieta, são todos sobre isso, ou também sobre isso.