As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tergiversando…

Luiz Carlos Merten

17 Janeiro 2014 | 12h00

Pertenço a uma geração em Porto Alegre que teve, talvez, os melhores críticos de cinema da história deste País. Mas era Porto Alegre, nos anos 1960, não havia internet e eles ficaram circunscritos a uma cultura local. Mais tarde, Jefferson Barros teve uma passagem pela Veja, José Onofre veio editar o Caderno 2 e Enéas de Souza foi para a Europa, trocando o cinema pela economia (mas voltou à sua velha paixão na Teorema, de Porto Alegre). Meus mestres amados… Escreveram-se quantos livros sobre Glauber Rocha? Não creio que alguém tenha ido muito mais longe do que a análise estético/política de Enéas em seu ensaio sobre Deus e o Diabo no livro Trajetórtias do Cinema Moderno, escrito no calor da hora. Por que escrevo isso? Porque guardo na lembrança – acho que o maior elogio que alguém, algum dia, me fez foi o de Jefferson Barros. Meninos (e meninas), eu vi 2001 num sábado à tarde, a primeira sessão do filme em Porto – no velho Orfeu, que havia virado Astor (e fechou). Vi naquela tela imensa. A aurora do mundo. Imediatamente, escrevi um texto e Jefferson, o grande, me disse a frase que ainda ecoa nos meus ouvidos – que Stanley Kubrick deveria ler o texto que escrevi para entender o filme que fez. Juro. Para um jovem, à sombra de gigantes, era mais que podia sonhar. Não creio que tenha memória curta. Lembro-me perfeitamente da odisséia kubrickiana e acho que tem, conscientemente ou não, importantes pontos de contato com o longa de Alfonso Cuarón indicado para o Oscar. Amo Cate Blanchett e acho que ela deve ganhar o Oscar por sua Blanche DuBois no novo Woody Allen. Deve, no sentido de que vai ganhar. Tenho dito isso desde que vi o filme em Nova York, acho que em outubro, ou novembro, nos intervalos de uma junkett. Mas não tenho tanta certeza, aqui, agora, no sentido de que deve ganhar por ser a melhor, neste caso específico. Aquela Sandra Bullock que se despede da filha e aciona os motores da nave para voltar mexe comigo. E após tanta falta de gravidade, quando ela senta o pé na terra e levanta, aquilo é a cena mais kubrickiana que Kubrick não filmou. Go, Sandra. Há 40 e tantos anos, diante de 2001, a sensação era de estarmos assistindo a um documentário sobre a vida no espaço. Só seria mais ‘real’ se Kubrick tivesse filmado no espaço. E o Cuarón, então? Revi algumas vezes o Gravidade no Imax. É um filme que só cresce. E nunca é a técnica que me ‘apanha’. É um filme sobre ‘tudo’, embora outros possam dizer que é sobre ‘nada’. O que importa o que pensam? Com as indicações para o Oscar, Gravidade deve ganhar mais tempo em cartaz. E eu espero poder ir de novo naquela odisseia com Sandra Bullock, sem rumo no espaço.