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Tergiversando

Luiz Carlos Merten

24 de janeiro de 2013 | 11h21

TIRADENTES – Tem gente reclamando da seleção da Mostra Aurora de 2013. Acham (são vários coleguinhas) que está muito xiita, e eu compreendo, mas não assino embaixo. A Aurora surgiu como alternativa para apresentar um cinema independente cujas chances são reduzidas, para não dizer nulas, no mercado. Gostei de ‘Matéria de Composição’, de Pedro Aspahan, me sensibilizei (e solidarizei) com ‘Esse Amor Que nos Consome’, de Allan Ribeiro, mas confesso que me angustio. Qual será a vida desses filmes após Tiradentes? Talvez um horário alternativo nos cinemas de Ademar Oliveira, ou quem sabe só o Canal Brasil? Não ponho o ‘só’ com conotação pejorativa. Às vezes uma única exibição na TV reúne mais público do que semanas no cinema. Emendando uma viagem na outra, até agora não sei como ‘Xingu’, de Cao Hamburger, foi na Globo, mas com toda certeza teve mais público nas salas e, para mim, é uma questão de merecimento. Li no outro dia uma avaliasção de dados divulgados nem me lembro se pela Ancine. O ano (2012) foi ruim para o cinema brasileiro, que só reagiu bem no final, com o sucesso de ‘Os Penetras’ e ‘De Pernas pro Ar 2’, que vieram se somar a ‘Até Que a Sorte nos Separe’ e outros raríssimoas filmes – comédias – que ultrapassaram 1 milhão de espectadores. A análise que li era bem interessante. O cinema brasileiro reagiu no fim do bsegundo tempo, em 2012 – se fosse uma partida de futebol -, mas o problema, a despeito dos números ascendentes, é que o share, a participação do produto brasileiro no próprio mercado, foi reduzida, menor que nos anos precedentes. O autor do texto lembrava que são comédias globais e lamentava o que seria a ausência de diversidade. Não sou de dar lições para o público sobre o que deveria ver, mas às vezases me aborrecem os raciocínios tortos. O share de 2010, que foi muito melhor, deveu-=se quase todo a um fenômeno, ‘Tropa de Elite 2’, de José Padilha, que virou o maior sucesso de público da história do cinema brasileiro. Longe de mim querer negar a importância do Capitão Nascimento para a sociedade, não apenas o cinema do Brasil, mas ‘Tropa 2’  também tinha o aporte da Globo Filmes, que fez um carnaval promovendo o filme. A coisa então funciona assim – como gostamos do ‘Tropa 2’ não faz mal que tenha Globo, que sozinho tenha feito o share disparar. O que queremos, eu não, é falar mal da Ingridd Guimarães que, aliás, é bem divertida nas comédias de Roberto Santucci e ‘De Pernas 2’ é melhor que a 1, o que deveria absolver o público da acusação de massificação. Daqui a 50 anos, mas não viveremos para ver, eu não, alguém, feito o Sérgio Augusto, que resgatou a chanchada em ‘Esse Mundo É Um Pandeiro’, vai analisar todos esses filmes e chegar à conclusão de que refletem a sociedade brasileira, goste-se ou não. Estou prestes a me perder no raciocínio. Falava de Tiradentes, da Mostra Aurora, e tergiversei. Ontem, para ver o Allan Ribeiro, perdi ‘Proezas de Satanás na Terra de Leva e Traz’, mas fiquei feliz que as três ou quatro pessoas que exortei a que vissem o filme vieram me agradecer, dizendo que era sensacional. E é, mas me lembro que, na época, o assisti numa sala vazia (ou quase). Ah, o público… Agora mesmo, escrevia a capa de amanhã do ‘Caderno 2’, sobre o ‘Lincoln’, de Steven Spielberg. O frilme, fortemente político, prossegue com uma discussão que Steven iniciou em ‘Amistad’ e, talvez, antes disso, em ‘A Cor Púrpura’. O filme adaptado do romance epistolar de Alice Walker foi um grande sucesso de bilheteria, ao contrário de ‘Amistad’, que a gente deveria assistir de joelhos, na cena do tribunal, em que Anthony Hopkins, como John Quincy Adams, está sublime, dando sua lição de democracia. Prosseguindo – qual será a reação dos espectadores a ‘Ferrolho’, de Taciano Valério, que vi ontem na Aurora? Foi a primeira ficção da mostra que tem curadoria de Cléber Eduardo. Integra a trilogia sem cor do diretor, iniciada com ‘Onde Borges Tudo Vê’, que passou no fim de semana aqui em Tiradentes e que o próprio Taciano me deu numa cópia de DVD, para que o visse. Nascido na Paraíba, radicado em Pernambuco, Taciano não filma o Recife, mas Caruaru. É um filme muito complexo para dar conta dele em um par de linhas – tenho entrevistas para fazer agora. Futebol, criminalidade, marginalidade e o barro humano, metaforizado por meio do barro de que os artesãos locais fazem suas peças, e mais. Adorei toda aquela gente torta e a homenagem a Cláudio Assis, transformado (no nome) em jogador do Central. O protagonista é um garoto que vive de entrar nas casas – ‘Casa Vazia, de Kim Ki-duk -, rouba calcinhas de mulher e deixa, como cartão de visitas, sua merda. O barro, em seu limite escatológico. Ao redor, a mãe lésbica, a avó safada, o avô bêbado, o amigo tarado etc. ‘Ferrolho’ tem potencial, como o cinema de Cláudio Assis – ‘Febre do Rato’ foi o maior sucesso na recente revisão do cinema brasileiro em 2012 pelo CineSesc. O filme bebe na fonte do Cinema Marginal – há uma referência direta a ‘O Bandido da Luz Vermelha’, de Rogério Sganzerla, mas eu vi muito de Ozualdo Candeias, ‘A Margem’, naquela representação da sujeira da cidade e do povo que vira bagaço em suas bordas., Pergunto-me se o filme terá espaço, se vai ‘acontecer’? Se não, o público ficará privado da voz de Taciano, e perderá por isso. Não diria que ‘Ferrolho’ é um grande filme, mas me perturbou muito. E tudo o que quero é conhecer Caruaru.

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