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Tergiversando (1001). E o bilhão, onde foi parar?

Luiz Carlos Merten

25 Janeiro 2017 | 16h10

TIRADENTES – Assim como não existe mais Oscar sem Meryl Streep, não há, para mim, Mostra de Tiradentes sem Bichinho. Impossível vir aqui sem bater ponto no restaurante da Ângela. Jorge Amado tece loas ao tempero de Gabriela, a do cravo e canela. Eu fico com O Tempero da Ângela. Desta vez, não tinha meus companheiros tradicionais – Dib, Orlando Margarido, a Cecília (de Brasília). Fui sozinho, mas fui. Trem bão demais da conta, gente. Estou aqui entalado como uma jibóia, depois de comer como Pantagruel. Deveria deitar para descansar, mas tem o seminário. Um olhar (estrangeiro) sobre o cinema brasileiro, com o programador do Filmfest Hambourg, Roger Koza, e na sequência o Manoel Rangel, explicitando avanços e pesperctivas da produção nacional. E depois o filme do Fred, e mais o da Mostra Aurora. A coisa vai longe… Não dei conta de que tenho lido um livro que comprei em Buenos Aires e ao qual já me referi. 50 Películas Que Conquistaron el Mundo, de Leonardo D’Espósito. O autor baseia-se na lista dos 50 títulos mais taquilleros de Hollywood, atualizados pela inflação. Branca de Neve, …E o Vento Levou, Pinóquio, Fantasia, Bambi, O Manto Sagrado, Os dez Mandamentos, A Volta ao Mundo em 80 Dias, Ben-Hur e por aí vai. D’Espósito utiliza as entrelinhas de suas análises para falar dos grandes filmes que não estão na lista. É curioso estar aqui em Tiradentes, na capital do cinema autoral e independente, onde a simples menção ao nome de Walt Disney deve provocar engulhos, e constatar, como faz D’Espósito, que muitas das invenções atribuídas a Jean-Luc Godard – destruição da quarta parede, montagem sincopada etc – já estavam nas animações do velho Walt. Um dos capítulos refere-se a A Bela Adormecida. El príncipe, el dragon y la princesa McGuffin. D’Espósito recorre a um conceito hitchcockiano – o McGuffin – para mostrar como La Bella Durmiente é secundária na própria história e a essência está toda na ligação do príncipe Felipe com a bruxa malvada, Maléfica. D’Esposito faz análises conceituais, semiológicas e psicanalíticas que subvertem o Disney adocicado e realçam o visionário perverso, como se, nas histórias de Branca de Neve e Cinderela, o príncipe quisesse comer a madrasta, não resgatar a pobre (e bela) princesa sofredora. Faz sentido. Duas chaves do melodramas são a mãe dedicada e a esposa abnegada. Basta quev a primeira vagabunda cruze o caminho do filho, ou do marido, para que as duas se danem. E quem D’Espósito não poupa é a noviça rebelde. A virginal Maria/Julie Andrews tem um romance pudico com o Capitão/Christopher Plummer e, sem intercurso, vira mãe de seus numerosos filhos. Muitas observações são realmente curiosas. Nunca li o romance cultuado de Margaret Mitchell que inspirou …E o Vento Levou e, portanto, não sabia (nunca vi alguém comentar) que começa com uma frase bem objetiva. ‘Scarlett não era bela’. D’Esposito mostra como o produtor David Selznick traiu o livro ao mobilizar a ‘América’ na busca da atriz, até escolher Vivien Leigh, mas essa traição é fichinha perto das demais, que terminam por expor a máquina de Hollywood e o filme como espelho das contradições da sociedade norte-americana em 1939. Ainda me faltam vários capítulos, sobre, entre outros filmes, O Poderoso Chefão, O Exorcista, os episódios 4, 5 e 6 de Star Wars, Os Caçadores da Arca Perdidas, Titanic, Avatar etc. Há até um bonus track – sobre Garganta Profunda. D’Esposito investiga o mito, difícil de confirmar, de que o célebre pornô de Gerard Damiano com Linda Lovelave, beneficiado por múltiplos fatores mundiais, teria faturado US$ 300 milhões na época, e que isso corresponderia, em valores atualizados, a… US$ 1 bilhão! Damiano morreu rico, mas não milionário, o ator Harry Reems arrependeu-se de toda safadeza, virou religioso e morreu pobre. E Linda, um pouco como Maria Schneider no Último Tango, sempre jurou que foi enganada (e estuprada), terminando por militar contra a pornografia. A pergunta que não quer calar – e o bilhão, gente, onde foi parar?