As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Tempo reencontrado

Luiz Carlos Merten

27 de agosto de 2014 | 23h59

Tem dias, como diria Chico Buarque, em que a gente se sente como quem partiu ou morreu. Tem dias em que me pergunto se terei perdido minha capacidade de discernimento crítico. Tive uma epifania ontem vendo Lucy – Luc Besson! -, na cena em que Scarlet Johansson, impulsivamente, beija o policial e ele pergunta por que ela fez aquilo. ‘Para não esquecer’ – o quê? Que é humana? Chorei. Como estarão reagindo meus colegas críticos ao novo Luc Besson? Não é um ‘autor’ e, muito menos, inspira respeito, mas o cara reinventou Stanley Kubrick, 2001, e só isso já me parece um assombro. Também vi hoje A 100 Passos de Um Sonho. Não fazia a menor ideia de quem havia dirigido o filme e, lá pelas tantas, cheguei a pensar que era Joe Wright. Quando a família de indianos se estabelece na cidade francesa e começa a (re)construir o restaurante, os planos-sequência me fizeram lembrar o diretor de Orgulho e Preconceito e Desejo e Reparação. Mas o filme é de Lasse Hallstrom. Já o entrevistei duas vezes, e gosto do cara. Lasse Hallstrom foi cooptado pelo cinemão, mas é honesto e possui essa capacidade – rara – de tornar palatáveis para o grande público temas como aborto, drogas e morte. Não é pouca coisa. A 100 Passos está vindo se somar a Chef e Bistrô Romantique, que também falam de comida (e vida). É o melhor dos três. Tive outra epifania. Chorei feito um condenado. O garoto indiano de Mumbai que veio da sarjeta, como diz a revista chique de gastronomia, e que sonha ser chef. Ratatouille? O garoto é lindo. Forma um par encantador com sua namorada francesa. Esses três filmes são a minha capa de amanhã do Caderno 2. O tempo perdido e (nem sempre) reencontrado. Marcel Proust na veia. Posso parecer velho, e tolo, mas o que não quero – nunca! – é perder a capacidade de me maravilhar.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.