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Tempo perdido, e reencontrado

Luiz Carlos Merten

20 de julho de 2013 | 10h49

Não gosto muito de Meu Malvado Favorito 2, apesar dos minions, e me surpreende que a animação de Chris Renaud e… esteja fazendo todo esse sucesso. No fim de semana passado, permaneceu em primeiro, em número de espectadores, mas o Rubem Dario, da assessoria da Warner, que sabe que amo O Homem de Aço, me informou que o épico intimista de Zack Snyder chegou praticamente junto nos espectadores e teve mais faturamento, o que é compreensível, por estar nas salas Imax, mais caras, e também porque a plateia do Malvado é preferencialmente de meias-entradas (os baixinhos e baixinhas). Aliás, fui rever ontem Man of Steel, mas depois eu conto. O plus do post é sobre animação. Gosto dos Contos da Noite, de Michel Ocelot, adorei Turbo, mas, depois de rever ontem pela manhã Zarafa, acho que se houver uma animação na minha lista de melhores do ano, e quase sempre tem, porque não vejo motivo para discriminar, creio que não será a História de Amor e Fúria, de Luiz Bolognesi, mas a de Remi Bezançon. Explico o ‘rever’. Em maio, após o Festival de Cannes, havia visto Zarafa num DVD de serviço para entrevistar Bezançon, durante os Encontros do Cinema Francês, em Paris. Conversamos sobre estilos de animação e sobre sua ficcionalização da histórias real da primeira girafa que aportou em terras francesas, como um presente do paxá do Egito ao rei de França. Ontem, na tela grande da Reserva, foi como ver outro filme. Um descobrimento e um alumbramento. Não sei como as crianças vão reagir à história de Zarafa, mas eu, bode velho, amei. No final, os coleguinhas acharam ‘engraçadinha’, a animação. Lembrei-me do título do livro de meu amigo Dib Carneiro sobre peças infantis – Pecinha É a Vovozinha. Zarafa trata de ganhos e perdas na vida, de sonhos e de comprometimentos – e, neste sentido, há muita coisa em comum com Os Gigantes da Montanha, do meu amado Gabriel Villela, um diretor melhor do que qualquer de seus (pobres) críticos, e com o Man of Steel de Zack Snyder (e Christopher Nolan, que formatou o projeto). Essa riqueza de temas se estende à narração, que segue o formato oral, próprio da cultura africana, e me encantou o final, que não vou relatar, mas me permitiu uma ponte com Ratatouille e sua busca do tempo perdido. Passei o dia pensando em Zarafa, nos personagens do menino e do beduíno, e no ‘dialogo’ final do garoto com a girafa, que é uma coisa linda e me remeteu diretamente ao olhar de Kevin Costner, o pai terreno de Clark Kent/Superman, nas suas duas grandes cenas em Man of Steel, quando ele contém o ímpeto do filho, para manter o segredo, durante a tempestade, e quando Diane Lane diz ao pesaroso Clark, que lamenta que o pai não o tenha visto fazer as coisas às quais estava predestinado e ela retruca que ele viu, sim. O tempo perdido e reencontrado, Marcel Proust na veia. Não creio que tenha visto ou vá ver este ano coisa mais bela do que aquele plano. Kevin Costner, que trabalha no motor do carro, para e… Não Bette Davis eyes, mas Kevin Costner eyes. Lembro-me de ter lido em algum lugar, por aí, ou ter ouvido falar que, se Clark/Kal-El/Superman é um herói americano é por causa de Jonathan Clark. Kevin Costner ressurgiu, renasceu. Grandioso como o filme de Zack Snyder. Havia gente pelo ladrão ontem à noite na sala Imax do Bourbon. Lotadaça. É interessante que, no outro dia, quando manifestei pela primeira vez meu entusiasmo por O Homem de Aço, alguém comentou que as cenas de ação – e combates – eram ótimas, mas que a parte, digamos, (melo)dramática, seria previsível. Eu não me canso com a ação, mas o (melo)drama, na verdade a tragédia, porque o especialista Douglas Sirk via na tragédia grega, e nos conflitos familiares, a essência dos bons melodramas, é que me ‘toma’ no filme de Zack Snyder. Não sei se vocês sabem, mas Lois Lane foi desenhada a partir de Joanne Carter, uma garota de Cleveland que serviu de modelo para Joe Shuster e que terminou se casando com Jerry Siegel no final dos anos 1940. As mulheres do Homem de Aço – Ayelet Zurer, a atriz israelense de Anjos e Demônios; a sublime Diane Lane, Amy Adams, gloriosa, e a alemã Antje Traue, a vilã mais brutal do cinema, o braço direito de Zod, Esse Zack Snyder não é mole não, para criar essa galeria de mulheres, mas é que ele tem a dele, a produtora Deborah Snyder, mais jovem e tão belas e dinâmica quanto a Barbara Broccoli que remodelou 007 com Daniel Craig. A próxima vez de revir Man of Steel será só de olho nas mulheres do herói, na sua diversidade, complexidade – e beleza. E depois vou querer ver mais uma pela paráfrase bíblica – as referências aos 33 anos, os braços abertos em cruz do herói quando ele salta no vazio para resgatar Lois em sua cápsula que está pegando fogo etc. Um filme com essa riqueza de detalhes não se esgota em uma nem duas visões.

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