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Teatro, de novo

Luiz Carlos Merten

10 de novembro de 2013 | 11h59

Desde o Festival do Rio e, depois, durante a Mostra, risquei o teatro da minha vida. Durante todo este tempo – um mês e meio, por aí -, (re)vi somente Os Gigantes da Montanha, de meu amigo Gabriel Villela, com o Grupo Galpão, na Praça Roosevelt. Beth Néspoli, que fez um trabalho de pesquisa com o grupo do Tó no Bom Retiro, teria encontrado excelente material, mas não a vi por lá, se bem que havia tanta gente que localizar uma pessoa seria como encontrar uma agulha no palheiro. Mesmo assim, encontrei – agulhas, ou pessoas, naquela noite. Enfim, queria ver ontem o Pirandello do Tolentino –  ainda sob a influência dos Gigantes -, mas Cláudio Fontana queria ver o Ricardo III de Marcelo Lazzaratto, com Chico Carvalho, que integrou a produção dele de Hamlet, a versão com Tiago Lacerda. Lá fomos, Dib Carneiro, ele e eu, ao Teatro João Caetano da Prefeitura, para ver a montagem de Shakespeare. Não sei exatamente quem produz, mas fui informado de que o produtor, ou produtores, têm o sonho desmedido de montar todas as peças do bardo num período de dez anos. É muito Shakespeare. Terão de ser quatro por ano, em média, mas nós, o público, a julgar por esse começo, agradecemos. Há quem reze pela cartilha de Barbara Heliodora, quando se trata de Shakespeare. Eu prefiro Otto Maria Carpeaux na sua monumental História da Literatura Ocidental, que é um dos livros faróis da minha vida. Vou citar de memória uma coisa que ele diz. É mais ou menos assim – Enquanto a criação de um mundo poético completo for considerada o critério supremo, Shakespeare é o maior de todos (autores? dramaturgos?), superior a Cervantes, Goethe e Dostoievski. Mas Carpeaux faz uma ressalva – só Dante participa da sua estatura. Essas duas frases apenas sempre fizeram delirar minha imaginação. Ricardo III não é a maior das peças históricas de Shakespeare,  mas é certamente uma das grandes, dominada pelo personagem do rei disforme e com cenas e frases que fazem parte dos tesouros que cada um carrega – eu carrego. Basta ouvir aquele ‘inverno do nosso descontentamento’ e o milagre opera-se. Gabriel Villela, sempre ele, fez uma síntese deslumbrante de Ricardo III com os Clowns de Shakespeare. Preparei-me, até pelo meu amor pela montagem do Gabriel, para ver algo que me exigiria boa vontade, mas fui atropelado por uma montagem que, a despeito de suas limitações – o elenco é irregular -, me pareceu sólida, vigorosa e bem feita. Gostei do tablado circular no palco italiano e da concepção cênica que transforma a sala numa grande arena, mas gostei acima de tudo de Chico Carvalho, que foge ao óbvio – o Ricardo aleijado e corcunda – por meio de sugestões que estabelecem a cumplicidade da plateia e, depois disso, ele reina no palco com suas maquinações que têm muito de divertido, apesar da grandeza trágica de certas passagens. Tinha uma expectativa especial pelo assassinato dos príncipes, na torre. Entre o boneco de Gabriel Villela e a caixa de música de Lazzaratto, fico com o primeiro, mas a morte de Clarence, uma das cenas emblemáticas da peça, é 10. Não digo que seja um grande Shakespeare, mas é bom. Custa baratinho – R$ 20 e R$ 10. A propósito, vem aí um novo Romeu e Julieta (filme), que já estava em cartaz em Londres, mas não vi. Hoje, entre um Mix Brasil e outro, espero ver o Tolentino. Teatro, de novo.

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