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Teatrando 2/Zibaldone e o mistério das vagas estrelas de Leopardi

Luiz Carlos Merten

29 de agosto de 2019 | 13h23

Zibaldone di pensieri é um livro de Giacomo Leopardi, de 1898. Zibaldone quer dizer miscelânea. De novo, como em Dolores, uma arena. Uma muralha de livros lançada por terra, um homem, uma mulher. O amor, a dor. O embate entre o gesto impulsivo, o rolar pelo chão, fazer amor, pelear-se, e a palavra consciente. Os livros como a cultura que forma uma base instável. Achei muito bonito o espetáculo (na Oficina Cultural Oswald de Andrade) que tem direção e dramaturgia de Aimar Labaki. Esperava pelo momento mágico, e ele veio. Le ricordanze.
Vagas estrelas da Ursa Maior, eu não acreditava
Voltar e poder novamente contemplá-las
Brilhando e iluminando o jardim de meu pai,
Ou conversar com você da janela
Nessa casa onde vivi minha infância
E vi a última alegria da minha vida se desvanecer.
Em italiano – Vaghe stelle dell’Orsa, io non credeva
Tornare ancor per uso a contemplarvi
Sul paterno giardino scintillanti,
E ragionar con voi dalle finestre
Di questo albergo ove abitai fanciullo,
E delle gioie mie vidi la fine.
Conta a lenda que, após a participação de Claudia Cardinale em Rocco e Seus Irmãos e O Leopardo, Luchino Visconti buscava um grande papel para ofertar à atriz. Decidiu-se por uma releitura moderna dos mitos de Electra e Orestes. Sandra/Claudia volta a Volterra, ao solar paterno, para o que será uma homenagem, a inauguração de uma estátua no jardim da mansão de onde o pai foi arrastado pelos nazistas, para morrer. A vida toda Sandra culpou a mãe pelo crime. Clitemnestra, a enlouquecida Marie Bell, que se move na tela ao som de César Franck. Prelúdio, Coral e Fuga. Uma história de fantasmas, logo tumultuada pela presença do irmão incestuoso – Gianni/Jean Sorel, no papel de sua vida. Revi Vagas Estrelas da Ursa no ano passado, na Filmoteca do Quartier Latin, em Paris. Preto e branco suntuoso e a presença hierática de Claudia, em quem Visconti esculpiu a persona somática das mulheres etruscas que chegaram até nós, especialmente como efígies. O filme chamava-se Sandra, como a protagonista. Foi Mario Soldati, homem de grande cultura, escritor e cineasta, quem sugeriu a Visconti a mudança. Pegando carona na cena do jardim, quando Sandra desvenda a imagem do pai, evocou o poema de Leopardi – ‘su paterno giardino’ – que Visconti fez Gianni/Sorel recitar. Le Ricordanze, Vagas Estrelas da Ursa. Há cinco anos, Mario Martone mostrou em Veneza sua cinebiografia do poeta. O jovem Giacomo, de origem aristocrática, possuía um espírito cultivado, refinado. Também possuía uma deformidade física que o levava a isolar-se. Viria daí sua crença na infelicidade como uma condição natural, inevitável da existência humana? Elio Germano, que fazia o papel, foi melhor ator em Veneza e ganhou todos os prêmios do ano na Itália – David di Donatello, Pasinetti Award, Piccioni Award etc. Não podia deixar de compartilhar com vocês minha impressão por mais esse trabalho intenso de Clovys Torres, recém saído daquele Artaud que vi na Virada Cultural.

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