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Tavernier, Almodóvar e as grandes entrevistas

Luiz Carlos Merten

17 de novembro de 2016 | 12h26

Foi talvez minha maior frustração no Festival de Cannes deste ano. Houve apenas uma sessão, em Cannes Classics, da viagem de Bertrand Tavernier pelo cinema francês, e perdi. O filme era longo, batia com não sei o quê. Terminei não vendo. No Rio, ocorreu de novo. Respeito Tavernier como diretor, mas o respeito mais ainda como crítico. Sua contribuição ao estudo do filme B norte-americano é inestimável. Queria muito – queria, não; quero – ver sua abordagem do cinema francês. Tavernier começa seu filme com um horizonte no qual aparece o sol. Ele lembra sua infância em Lyon. A libertação. Seu pai era um resistente que escondeu em casa Louis Aragon, quando era caçado pelos nazistas. Lighting the way, Iluminando o Caminho. Há uma bela entrevista de Bertrand Tavernier no número de setembro/outubro de Film Comment, ao qual já me referi. My Journey Through French Cinema foi uma das atrações do 54.º Festival de Nova York. Tavernier pertence à geração pós-nouvelle vague. Foi crítico, e até assessor de imprensa de grandes diretores. Tavernier faz uma observação que parece simples. Durante a nova onda, a clsassew trabalhadora sumiu do cinema francês. Operários, operárias, jamais. A Rive Gauche, Saint Germain, livrarias, o Café Flore. Não sei até que ponto, mas, pelo texto, o documentário privilegia autores malditos. Jacques Becker, Jean-Pierre Melville. Jean Gabin, Tavernier afirma, foi o primeiro herói operário francês. E Gabin, por mais importante que tenha sido sua parceria com Jean Renoir, nunca perdoou o filho de Auguste por haver escrito numa carta ao Ministério da Informação sob Vichy, que os judeus eram ‘escória’. O afastamento quase virou ruptura definitiva quando Renoir, exilado nos EUA, durante a guerra, pensou em requerer cidadania. “Se o seu nome é Renoir, você não pode querer ser cidadão norte-americano’, sentenciou Gabin. Tavernier ama, acima de todos, seus dois padrinhos – Meville e Claude Sautet. Conta que, quando garoto, assistiu quatro vezes na mesma semana a O Rastro da Bruxa Vermelha, de Edward Ludwig, com John Wayne. É o mais belo dos filmes, agora sou eu dizendo. Quem nunca viu o Duke enfrentar o polvo naquele filme não sabe o que é cinema. E Tavernier, agora é ele, arremata – ‘É o verdadeiro cinema, influenciado pelas (irmãs) Bronte.’ Amei a entrevista de Film Comment e fico sonhando quem vai trazer Minha Viagem pelo Cinema Francês, de Tavernier, ao Brasil? Jean-Thomas Bernardini? O Festival Varilux no ano que vem? Entendam-se, mas tragam! Film Comment tem outra grande entrevista. Com Pedro Almodóvar, Julieta. Outro dia, na reunião de pauta do Caderno 2, Antonio Gonçalves Filho lembrou um velho ensaio sobre Almodóvar, ainda dos anos 1980. La Otra España caní. Pedrito transgressor, vestido de mulher. Ele ousava mais naquela época? O que sei é que Almodóvar é hoje mais denso, profundo. Não troco Julieta por nenhum de seus filmes ‘canís’. Na entrevista, Almodóvar pode surpreender quem o fantasia como (eterno) rei da movida. Seus personagens estão cada vez mais solitários, isolados. E Almodóvar confessa que também vive assim. Não tem mais muita paciência com o estado do mundo. Prefere viver sozinho na sua casa silenciosa, em companhia de seu gato (peludo, que faz miau). “Meu gato, meus fantasmas, o cinema e eu. É só o que preciso.’ Isso, é claro, se reflete na criação – em Julieta. O cinema, segundo Pedro, não é negócio nem trabalho, não para ele. ‘É a minha maneira de viver.’ E ele diz uma coisa que me impressionou. “Se escapo hoje de tudo o que já me atraiu – festas, drogas, desejo -, é por amor ao cinema. Se cuido da saúde, se perco peso, é para estar em forma para o próximo filme. Meu vício é o cinema.’

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