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Tarzan!

Luiz Carlos Merten

12 Julho 2016 | 17h40

Há um momento de A Lenda de Tarzan em que Margot Robbie, a Jane de David Yates, faz uma observaçã aparentemente desprositada para Rom, o vilão de Christoph Waltz. Ela diz que um lado do bigode dele está desparelho. Parece que é só picuinha para irritar o bad boy, e ele é terrível. Vou advertir que talvez haja risco de spoiler para quem seguir lendo o post. Você pode deixar para ler depois de ver o filme, mas, se seguir, para mim a cena é uma maneira engenhosa e sutil para chamar a atenção do público para o essencial. Escrevi num outro post que Como Eu Era Antes de Você é sobre a construção do olhar. A Lenda de Tarzan é sobre a construção do toque, e a importância das mãos. Só um parêntese, lembro-me de uma entrevista de Joseph Losey no livro de Tom Milne dizendo que olhar, voz, tudo é importante na arte da representação, mas um verdadeiro ator, no cinema, se reconhece pelo que faz com as mãos. Outro parêntese antes de seguir adiante – digamos que dois fatores contribuíram muito para minha fruição de A Lenda de Tarzan. Fui ver ontem Entre Idas e Vindas, e o belo filme de José Eduardo Belmonte com Ingrid Guimarães, nossa nova melhor atriz dramática, é sobre a necessidade de perdão. E hoje pela manhã, fui ao médico – o Dr.Daniel, na clínica do Dr. Drauzio – e até comentei com ele que não me incomodo quando atrasa porque o deles é o único consultório que conheço que tem The Economist, e toda edição da revista tem sempre um obituário que é uma obra-prima literária. Daniel me observou que Drauzio assina e força todo mundo a ler justamente pelo inglês impecável. Um dos necrológicos era o de Muhamad Ali, e terminava com a frase clássica dele, dizendo que só queria ser lembrado como o homem que nunca olhou debaixo aqueles que tentavam, olhá-lo de cima. Há uma cena em que, sob a mira do revólver do vilão Rom, o aliado de Tarzan diz – ‘Um chefe Kuba não se ajoelha…’ Teria sentido a cena diferente sem a lembrança de Muhammad Ali, e o perdão… Além de Rom, Tarzan tem dois inimigos – o chefe nativo Mbonga e o meio irmão macaco, e com ambos ele tem de acertar suas contas. Imagino que deva ser difícil para os pobres realistas de carteirinha aceitarem que o herói, belo como um deus – Alexander Skarsgaard -, se considere filho de uma macaca, e chore por ela. Quem nunca leu Tarzan aos 9, 10 anos, não sabe o que perdeu. Li em algum lugar que Glauber lia Nietzsche ou qualquer outro desses gênios aos 8 anos. Podia ler, mas entender… Eu ia dizer que deu no que deu, mas seria injusto com Glauber. O que quero dizer é que a dor de Tarzan, ao perder Kala, pavimentou meu caminho para… Dostoievski? Não estou causando, só sendo sincero. De cara, Lorde Geystoke encontra as crianças que lhe perguntam se ele caminhava sobre as mãos, como macaco, e ele faz uma demonstração. A partir daí, a importância das mãos se faz presente, nas idas e vindas temporais que compõem o mosaico temporal da história. O toque do bebê nas mãos poderosas de Kala, o toque invasivo de Tarzan em Jane e a forma como ele, meio bicho – homem-macacao – inicia o ritual de casalamento, cheirando-a, para identicar a fêmea, e baixando pelo corpo dela até o sexo, numa das cenas mais intensamente eróticas que já vi no cinema. O filme é uma grande aventura romanesca e tradicional, mas seus melhores momentos são esses fragmentos de vida. Tarzan reencontrando adultos os filhotes, e roçando-se neles, para sentir o cheiro, a identificação pelo elefante, o embate com o meio-irmão e as palavras sussuradas no ouvido de Mbonga – elas soaram para mim como o reencontro de Fábio Assunção com a mulher, que dá todo sentido ao filme do Belmonte. Na trama de A Lenda de Tarzan, o herói, adulto, volta à selva para evitar o plano expansionista de Rom, que pretende escravizar todo o Congo para Leopoldo II, da Bélgica, um dos maiores déspotas da história. De volta ao começo, a frase de Jane chama justamente a atenção para essa inabilidade (será a palavra?) de Rom com as mãos. Ele não cria com elas, só mata. Seu rosário serve para estrangular e, quando ele diz que o ganhou de um padre, Jane levanta uma suspeita sobre a ligação dos dois. (Espero que, por isso, o filme não seja suspeito de homofobia.) Quantos espectadores percebem essas, digamos, sutilezas? Como diria Antunes Filho em Blanche, vão trabalhar vagabundos, nós o público. Para nos forçar a criar a dramaturgia, David Yates não precisa de nenhuma língua inventada, bem idiota, por sinal. O maior desafio do filme dele, que seria o inglês, ganha uma justificativa, na forma como ingleses e nativos interagem, um na língua do outro. O Tarzan de David Yates não é, como já foi no passado, um agente do colonialismo para Hollywood. O herói africaniza-se. Radicaliza o chamado da selva e no final… Esperem para ver. Não consigo avaliar quão bom é Tarzan para mim. Só sei que gostei muito (muito!) de ver o filme. Poderia durar para sempre. A imagem de Tarzan com o bebê das mãos é o derradeiro toque, além de ser o contraponto ao futuro prometido pelosa Roms desse mundo. E ah, sim, certos vilões são tão sinistros que a gente torce por um desfecho cruel para eles. O de Rom é exemplar.