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Taron Egerton como Elton John (e ele não vai ganhar o Oscar!)

Luiz Carlos Merten

27 de junho de 2019 | 12h47

Ainda não havia visto Rocketman. Vi ontem a tarde, portanto, sou o último com as primeiras. Como a vida é injusta! Muitas vezes é só uma questão de timing. Bryan Singer iniciou Bohemian Rhapsody e, depois, creio que pode ter sido por conta das denúncias de assédio que o atingiram, afastou-se da produção (ou foi afastado) e nem participou do lançamento, mesmo mantendo a assinatura. (As regras da Academia são muito restritas quanto à autoralidade; se o sujeito dirigiu tantos por cento, tem de ter crédito; e se não houver acordo e o filme permanecer acéfalo, o crédito vai aquele tal de Alan Smithee, um nome de fantasia, mas que tem uma das mais extensas filmografias de Hollywood.) Enfim, Dexter Fletcher finalizou a produção e Rami Malek, como o protagonista, Freddie Mercury, conheceu o sucesso que todo mundo sabe. Globo de Ouro, Oscar, etc, etc. Onde é que entra o timing nisso? Bem, lá vou eu fazer inimigos. Dexter Fletcher foi chamado para conduzir a cinebiografia musical de Elton John e Taron Egerton, o moleque de Kingsman, ficou com o papel. Duvido que a Academia vá atribuir, dois anos seguidos, seu prêmio de melhor ator para filmes que contem a história de astros do rock. Taron chegou tarde, mas quero dizer que, para o meu gosto, numa eventual disputa entre Remi Malek e ele, meu voto iria para o Robin Hood. Justamente – antes de ser Rocketman, Taron foi o herói da floresta de Sherwood numa louca aventura que me divertiu bastante. Vou divagar. No post anterior, já disse que, por volta de 1970, estava na estrada, percorrendo os caminhos do Cone Sul. Totalmente conga e poncho. Meu rock’n’roll resumia-se a Elvis, aos Beatles – os filmes de Richard Lester. Os Rolling Stones conhecia por causa de Gimme Shelter, e One Plus One – pelo cinema. Devia viver no universo paralelo. Creiam-me – o ABBA só entrou na minha vida com Donna/Meryl Streep e suas amigas, performando a trilha da banda. Dancing Queen! Sobre Elton John, sabia que era um gay extravagante, que se cobria de peles e pedrarias, era amigo de Lady Di e cantava o tema de O Rei Leão (In the circle of life/It’ the wheel of fortune!). Juro! Não tenho a menor condição de dizer quão acurada é a versão de sua vida por Dexter Fletcher, mas gostei de saber que Elton, que tinha controle sobre a produção, não apenas deu carta branca como exigiu que o filme tivesse sexo e drogas. Fiquei com vontade de rever Bohemian Rhapsody por causa desse quesito particular. Não creio que o filme sobre Freddie Mercury fosse tão pudico, com cenas de (homos)sexo tímidas. Tenho até a impressão de que, talvez, mostrando menos, Bohemian Rhapsody sugere mais. Por mais que o entourage seja decisivo nos dois filmes – e os managers tentem manipular/controlar os ‘heróis’ (?) -, Freddie é mais bad boy do que Elton, sempre confrontado com o menino (Dwight) que foi. Citizen John. O filme adota o formato de uma sessão de terapia – dos Alcoólicos/Drogados Anônimos – para que o próprio Elton revisite, por meio de flash-backs, sua vida, tentando decifrar, à maneira do Professor Isak Borg de Morangos Silvestres, o enigma da própria existência. E só quando reencontra o menino, no fundo daquela piscina, e depois o abraça, reconciliando-se consigo mesmo, Elton escapa ao círculo da autodestruição para abraçar o da vida. Gostei demais do Taron, de Bryce Dallas Howard, de Gemma Jones e Jamie Bell. Até chorei. Gostei do filme, como não, mas não consigo entender como Lady Di ficou fora dessa. Assim de longe, sem saber muito, creio que ela, ao se ligar a Elton John, turbinou alguma coisa no inconsciente popular, no imaginário do público. Fez uma passagem muio importante. No filme, o jovem Elton vai se apresentar num pub. Canta uma música que fala no sábado como dia de encher a cara, de tomar e receber porrada. Impossível não pensar no free cinema, em Karel Reisz e Albert Finney. Tudo começou num sábado – Saturday Night and Sunday Morning. A classe trabalhadora, a princesa dos pobres. Interrompi esse post para falar com Gabriel Mascaro, sobre o filme dele, Divino Amor, que estreia amanhã – quinta, 27. Minha cabeça anda a mil, mas eu me recuso a ceder à depressão. Tantos motivos para querer voltar a crer, novamente.

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