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Tardes uruguaias

Luiz Carlos Merten

23 de dezembro de 2015 | 16h56

MONTEVIDEO – Cá estou, desde ontem. Vim passar o Natal com minha filha, a Lúcia, e a mãe dela, Dóris, minha ex, que exatamente hoje completa 70 anos. Dóris e eu viemos muitas vezes a essa cidade no começo dos anos 1970, há mais de 40 anos. Montevidéu foi a minha cinemateca. A gente pegava um ônibus à noite, dormia a bordo e passava o fim de semana vendo filmes que, na época da ditadura, eram proibidos no Brasil. Embora eles, os uruguaios, também vivessem sob governos (ditaduras) de militares, o país mantinha a pose de Suíça sul-americana e aqui passavam filmes que eram banidos em todo o restante do Mercosur (que ainda não existia…) A Laranja Mecânica. Decameron, Estado de Sítio, precisaria mais que o e4spasço desse post para lembrar só alguns filmes proibidos que vi aqui no Uruguai.A 18 de Julio, a Paulista deles, não é mais sombra daquela avenida da minha juventude. Foram-se os cinemas de rua, hoje estão nos shoppings. Dei uma olhada na cartelera e há pouquíssima coisa em cartaz diferindo do Brasil. Mas Montevidéu não perdeu o encanto. Estamos indo daqui a pouco a uma vinícula, mas eu já prometi a mim mesmo maneirar na degustação. À tarde quero ver Las Sufragistas, que já entrou em cartaz. Adoro passear pela Ciudad Vieja, com o Teatro Solis, o Museo Torres García e as velhas livrarias. Comprei uma coletânea de ensaios sobre ‘las grandes películas asiáticas’ (Espiritualidad, violência y erotismo en el cine oriental) e outra sobre a representação de cidades europeias no cinema. E ainda não dei conta das revistas que comprei na banca da Paulista, em São Paulo, no fim de semana – ainda estava mal. A Cahiers de outubro estampa na capa uma entrevista com Paul Verhoeven. A revista faz mea culpa. Diz que se devia uma grande entrevista com o grande diretor (holandês) que sempre negligenciou, exceto pela crítica elogiosa a Black Book. Cahiers resgata as obras-primas do grande Paul. Starship Troopers, Starship Troopers, Starship Troopers, que considera o maior blockbuster de Hollywood em sua era. Bye-bye representação do futuro à James Cameron. Entra Paul Verhoeven com seu destacamento de nazistas na conquista do espaço. Ronald Reagan, os Bush (pai e filho). A ironia é uma arte perdida, mas os cretinos (da Cahiers e do Brasil) não se davam conta. Tratavam os filmes como fascistas, vulgares. Lembro-me que, no jornal, precisei botar o p… na mesa para que Black Book/A Espiã ficasse pelo menos como bom. Só Paul Verhoeven para contar a histórias da judia que se faz passar por p… alemã e pinta os pentelhos para tornar o disfarce convincente, porque só assim ajudará a Resistência. E, no mesmo filme, a heroína prende o nazista vivo no caixão, para que ele sufoque até à morte. Cahiers não é, nunca foi, minha Bíblia, mas é a Bíblia de muitas gente que emula, sem se questionar, seus conceitos. Da revista, posso pelo menos dizer que sua redação ama o cinema e não teme se questionar, voltar atrás. Paul Verhoeven é um amor antigo, mas, no Brasil, o outro Verhoeven, o alemão Michael, de Uma Cidade sem Passado, era mais considerado. Lembro-me de Sérgio Augusto (Sérgio Augusto!) espinafrando Paul por causa de The Nasty Girl. Se ele fazia isso, imaginem o resto. Instinto Selvagem! RoboCop! Showgirls! Paul Verhoeven está filmando na França com Isabelle Huppert – Elle. Espero que seja um dos filmes do ano que vem.

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