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Tanto mar

Luiz Carlos Merten

13 de agosto de 2013 | 19h04

GRAMADO – Gosto demais do documentário, ou será ensaio poético?, de Bruno Polidoro e Cacá Nazário sobre Caio Fernando Abreu, Sobre Sete Ondas Espumantes. O filme havia sido exibido no É Tudo Verdade e agora há pouco o revi na Mostra de Cinema Gaúcho. Teria revisto de qualquer maneira, mas confesso que me havia esquecido qual era o programa. Só sabia o horário e que o filme era do Rio Grande. Foi uma agradável surpresa (rever). Pedi licença para escrever no outro dia com uma linguagem chula sobre Tatuagem. Para ser coerente, teria de usar agora uma linguagem poética sobre Sete Ondas. É mais difícil – muito mais. É curioso, mas Caio F. foi um farol que lançou sua luz sobre toda uma geração. Fui contemporâneo dele em Porto, na verdade acho que ele veio um pouco depois, e o via em eventos, redações, mas nunca nos cruzamos nem falamos. Ele era muito mais próximo de Tuio Becker. E o Caio escrevia crônicas no Estadão quando já estava lá. Li algumas de suas coisas, não tudo, e de novo ao ouvir e ler os textos impressos na tela me perguntei por que não o li mais? Por que não leio? São coisas delicadas e densas. Tatuagens na inteligência e no espírito, mesmo que a literatura e a crônica e a poesia de Caio muitas vezes passem experiências físicas. A dor de ti, a dor de mim, as duas lanças, o ir-remediável, tudo isso é muito forte no que ele escreve. E Caio marcou sua geração. Maria Adelaide Amaral, a quem encontro seguido em Sampa – em eventos de teatro, principalmente -, emociona-se ao ler seus textos e ao falar dele. Suzana Saldanha chora copiosamente. Grace Gianukas recita aquele texto lindo, pedindo que Deus se apiede de nós e ele, Caio, fala nos gays tontos de amor não dado. Lembrei-me de um velho romance da sra. Leandro Dupré – senhora quem? Acho que O Romance de Teresa Bernard. Quem ainda se lembra da autora de Éramos Seis? A protagonista diz de uma tia solteirona que sempre teve pena de tanto amor contido, e não compartilhado. Os diretores, e Cacá Nazário, com quem falei, vão tentar lançar Sete Ondas mesmo que seja em horários alternativos, em pequenos circuitos de arte de São Paulo, do Rio, de todas as cidades brasileiras em que isso for possível. A Vitrine bem poderia dar uma ajuda no processo. E o público, os cinéfilos, merecem o filme. No final, Adriana Calcanhoto canta à capela. E pergunta – é isso, não? Sim, é isso. Intimismo, delicadeza, mas naqueles textos existem reflexões profundas, indagações viscerais. Maria Adelaide, que muito o conheceu, diz que Caio se lançava numa busca incessante – do outro – mesmo consciente de que nunca encontraria sabe-se lá qual porto seguro procurava. É um pouco o sentimento de Fininha, que sabe que nunca poderá ficar com Clécio em Tatuagem, de Hilton Lacerda. Gostei de rever Sete Ondas. A cabeça está aqui latejando e o Clair de Lune ficou comigo, aquela viagem por uma casa vazia, habitada por fantasmas (ou fotos, simplesmente). Tanto mar, naves que não chegam ao seu destino. A errância como estado permanente.

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