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Tamanho não é documento

Luiz Carlos Merten

26 de agosto de 2012 | 11h01

Assisti ontem ao programa paulista do Festival de Curtas, no Cine Olido – meu chão , às 5 da tarde. Gostei demais (do programa), embora o primeiro curta, sobre Adoniran Barbosa e seu mítico ‘Trem das Onze’ tenha me parecido malfeito. Como vou explicar? A ideia é bacana. Nunca houve trem das onze, Adoniran mal pisou em Jaçana, mas queria rimar com ‘amanhã de manhã’. O problema é que os entrevistados ficam repetindo a mesma coisa e histórias que poderiam ser saborosas passam ao largo, inclusive a da produtora Maristela. Conta a lenda que Adoniran pegaria o tal trem justamente para ir à produtora. Há algo que me toca – o bebê, o gat, a solidão do velho? – naquele outro curta, ‘O Fim-qualquer coisa’, sobre o cara que cuida do banheiro público. Esse, eu jás conhecia – de onde? Do Recife? E vieram ‘Cidade Improvisada’, de Alice Riff, sobre rappers de São Paulo, com seu viés paqrticular para encarar a cidade. Max V.O, Slim, a poderosa DD. Fiquei chapado, especialmente com a última, e o público do Cine Olido, que estava lotado, aplaudia em cena aberta as improvisações. DD, para mim, era Diana Dors, a Marilyn Monroe inglesa por volta de 1960, a quem Jerzy Skolimowski deu um papel forte em seu ‘Ato Final’, Deep End, dez anos mais tarde. DD, a partir de agora, é a rapper de ‘Cidade Improvisada’, que deve ter um trabalho fora do filme, e foi esse que a levou a integrar a produção. Eu sempre digo – há uma São Paulo que as pessoas não conhecem, e ela passa muito pelo Centro, pela Galeria Olido, com seus personagens. A garotada que faz street dance, os mais coroas (mas há muitos jovens também) na Galeria da Dança, uma verdadeira vitrine cujos figurantes parecem saídos de um clássico de Ettore Scola, ‘O Baile’. O último curta foi bejm interessante, ‘Aluga-se’, sobre uma garota que procura casa e um cara que está sendo forçado a vender a dele, para que todo o quarteirão abrigue um grande ’empreendimento’, ou seja, mais um condomínio com ‘trocentos’ apartamentos e mais uns milhares de carros nas ruas. É uma pena que não tenhamos em São Paulo nenhum Francesco Rosi, com seu cinema documentado. Tenho certeza de que bastaria fuçar nas comissões e secretarias correspondentes para fazer aqui ‘Le Mani sulla Città’. ‘Aluga-se’ termina muito bem. O casal encontra-se nessa cidade que é um imenso canteiro de obras. Quando ficar pronta, São Paulo será muito bonita. Com seus altos e baixos, adorei o programa. Pretendo voltar hoje à tarde. Agora, estou na redação do ‘Estado’, fazendo os filmes na TV – de amanhã e terça. O título é só para lembrar que, independentemente de formato e suporte, há curtas que são, sim, grandes.