As informações e opiniões formadas neste blog são de responsabilidade única do autor.

Suspiria, e a tríplice interpretação de Tilda Swinton

Luiz Carlos Merten

25 de março de 2019 | 09h56

Confesso que fui ver Suspiria, a versão de Luca Guadagnino, um tanto apreensivo. O filme cultuado de Dario Argento, de 1976, já é tão excessivo. Profondo rosso – o uso agressivo da cor vermelha -, a trilha pesadíssima da banda Goblin, a impressionante cena do ataque do cão guia ao pianista cego. Argento conta sua história em exatos 100 min. Guadagnino precisa de quase uma hora a mais – 152 min. Boa parte desse tempo é utilizada para contar a história do psicoterapeuta, de luto pela morte da mulher, e que descobre, a partir do diário de uma paciente, que algo sinistro ocorre na escola de dança de Mme. Blanc. Fiquei pensando se o novo Suspiria é assustador – mais que o filme de Argento -, ou se Guadagnino prefere investir no grotesco, com gore e muito, muito sangue. A primeira cena de dança dá o tom, e enquanto Susie/Dakota Johnson executa sua coreografia na sala de espelhos, a dança da morte da bailarina que a precedeu faz com que essa última se arrebente toda, destroçando seus ossos e membros e terminando como um feto, toda encolhida sobre si mesma, o que faz com que entrem em cena os temidos ganchos. Guadagnino mantém a ideia das três mães – Tenebrarum, Lacrymarum e Suspiriorum – e Tilda Swinton interpreta não uma nem duas, mas três personagens, o que não percebi na hora e por isso não vou adiante nessa conversa para não dar spoiler. A melhor coisa do filme, para mim, foi o romance do velho dr. Kemplerer, e a mulher de quem ele se perdeu na guerra. Esse trágico desencontro ainda ecoa na vida dele, tanto tempo depois, atormentando o sentimento de culpa do qual finalmente será liberto. Não gostei muito do novo Suspiria – o outro é melhor -, mas vou rever o Guadagnino porque são muitos detalhes e mais que isso. Argento sempre apostou no kitsch, que elevou a estilo, por meio de uma mise-en-scène intensamente visual e que desconsidera (quase!) roteiro e interpretação. Guadagnino faz do kitsch uma espécie de comentário – quer homenagear ou criticar os autores do giallo, Argento à frente? Achei seu filme mais astuto que visceral. A sangueira entra ali para nos distrair, a nós, o público, de uma certa frieza. Gostei de Tilda, como não?, mas Dakota, bela como é, não tem o physique du rôle da bailarina.